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Quanto vale a cura?

Por Débora de Oliveira
Publicado em: 23.04.2022 às 03:00

O câncer por si só já é uma doença maldita que deixa devastado quem recebe o diagnóstico, amedronta pacientes e famílias, desafia a medicina, é absoluto nas estatísticas das comorbidades que mais causam mortes prematuras no mundo. Sim, enquanto você lê essa crônica alguém com menos de 70 anos está perdendo a vida para esse mal.

São quase 20 milhões de novos casos a cada calendário. Só aqui no Brasil 625 mil são contabilizados por ano apenas no último triênio. Números assustadores que poderiam e deveriam servir de alerta para gestores públicos no sentido de monitorar as principais causas e fornecer subsídios de tratamento que possam controlar a doença, fortalecer as pesquisas que podem levar à cura e, principalmente, disponibilizar um tratamento digno. Só assim poderíamos ter um alento nas estimativas e virar o jogo das estatísticas avassaladoras.

Como se não bastasse o baque da notícia, a dura realidade de enfrentar a dor do resultado dos exames, o sofrimento com sintomas, incômodos do tratamento, efeitos colaterais de quimio e radioterapia... Agora cerca de duas mil pessoas terão que se deslocar a Taquara para o atendimento que deixa de ser feito em Novo Hamburgo por um desacordo entre governo e Hospital Regina.

Nada contra o Hospital Bom Jesus, que presta um serviço exemplar de acolhimento desses pacientes, e que agora será referência também para pessoas de Estância Velha, Dois Irmãos, Campo Bom e Ivoti. O que sou contrária é sempre ver a população arcar com as consequências da falta de políticas públicas que contemplem a comunidade, e não os interesses que sempre estão tão distantes do que as pessoas realmente precisam e com urgência.

Não adianta amenizar os fatos disponibilizando transporte até Taquara. Não é um passeio agradável percorrer quilômetros para salvar a própria vida. Não é possível que quem tenha o papel e a caneta não pense na dignidade mínima da pessoa que vai utilizar esse serviço, que não tenha empatia com o sofrimento, que não se coloque no lugar imaginando "e se fosse um familiar meu, alguém que eu amo...". Não é possível esse silêncio resignado dos que foram escolhidos para mudar essa realidade que só adoece ainda mais quem precisa de ajuda.

O mínimo seria cada cidade ser referência para seus moradores e todas terem estrutura decente para atender pessoas que precisam lidar com doença grave. Mas aí é sonhar demais diante das tantas prioridades como construir mais estradas e mais pedágios e mais licitações e mais leilões e mais arrecadações com impostos que só sobem e tributos que só sugam os contribuintes. Contém ironia essa minha frase. Pagamos, pagamos, pagamos. Tudo sobe, tudo vira imposto, tudo vem na nossa conta para ser diluído das responsabilidades dos gestores... E nos governos segue não fechando a conta para investimentos que possam permitir uma evolução do descaso para o básico.

Todos dizem que estão tentando que a transição tenha o menor impacto possível para o paciente. Quer impacto maior do que saber que o sofrimento e a vida deles são tratados como negócio? A cura não tem preço.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
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