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O poema encontrado

Por Marcelo Pelissioli
Publicado em: 26.01.2022 às 03:00 Última atualização: 26.01.2022 às 10:21

Nessas idas e vindas do desvão dos dias, eis que um livro, já de aspecto cansado, muda de mãos. Dentro deste livro, um papel dobrado, já inevitavelmente amarelado, aguardava a oportunidade de apresentar o que havia de melhor nele: seu próprio conteúdo. Assim foi descoberto um poema inédito de Mário Quintana (1906-1994), a "Canção do Primeiro do Ano".

O poema levou 81 anos para vir a público. Inicia-se com os seguintes versos: "Pelas estradas antigas/ As horas vêm a cantar./ As horas são raparigas,/ Entram na praça a dançar. Ao ler o poema, reflito sobre quais haveriam sido essas canções de tantas horas vivenciadas ao longo de 8 décadas reclusas dentro de um livro. Canções felizes, de esperança na descoberta? Canções tristes sobre uma existência, sem conseguir cumprir seu propósito de poema, de traduzir sentimentos intraduzíveis pela simples prosa?

"Prendi a rosa dos ventos/ Na fita do meu chapéu./ Uma por uma, as janelas/ Se abriram de par em par." Agora sim, querido poema. Estás livre para desbravar o mundo, para seguir teu caminho, tal qual o gênio da lâmpada maravilhosa ou como os recém-nascidos que, como dizia Quintana, são a prova de que, a todo momento, o mundo se renova.

"E de novo, sem lembrança/ Das outras vezes perdidas,/ Ativo a rosa do sonho/ Em tuas mãos distraídas." Sim, estimado poeta. O encerramento dessa nova pérola de teu repertório nos chama à realidade de quão distraídos podemos passar nossos dias, semanas, meses, anos e décadas (quem sabe uma vida toda), tal qual um papel amarelado, presos dentro de um livro, simplesmente aguardando, passivos e inertes, sermos resgatados por algo ou alguém para podermos, deveras, cumprirmos o destino desejado que habita nos mais secretos recônditos de nossos corações.


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