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Balas perdidas

Por Jackson Buonocore
Publicado em: 24.06.2021 às 09:09 Última atualização: 24.06.2021 às 10:07

Kathlen Romeuera, uma jovem mulher negra e grávida que morreu baleada em meio à ação policial em Lins de Vasconcelos, no município do Rio de Janeiro. Kathlen virou estatística, pois conforme a plataforma de dados Fogo Cruzado, desde 2017 15 grávidas foram baleadas na Região Metropolitana do Rio, quatro delas em meio a ações policiais, e oito morreram.

Além disso, os dados revelam que nos últimos dez anos 35 crianças morreram vítimas de balas perdidas no Rio de Janeiro segundo olevantamento da ONG Rio de Paz. Também as estatísticas apontam que 95% das vítimas de balas perdidas residem nas favelas, onde os confrontos entre as forças policiais e os traficantes são os responsáveis por essas mortes.

No meio das balas perdidas, a maior parte das vítimas são mulheres grávidas, crianças e adolescentes que moram nas periferias, que têm suas vidas - brutalmente - interrompidas pelos tiroteios entre a polícia e os criminosos. É uma tragédia humana, que pode e deve ser evitada, visto que causa graves danos mentais e emocionais à população que vive nos subúrbios, que já é vítima de tantas mazelas sociais.

Os confrontos entre policiais e bandidos são zonas de guerra, que podem ser deflagradas a qualquer momento, que transforma em rotina a morte de inocentes por balas perdidas, que nos causam perplexidade ou indignação. No entanto, não geram nenhum tipo de desculpa e constrangimento nas autoridades de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro.

Aliás, os casos de balas perdidas, geralmente, não são investigados e nem são feitas as balísticas necessárias, o que torna ainda mais difícil a comprovação da autoria dos crimes, ou seja, tudo acaba no esquecimento, uma vez que demoram anos para finalização dos inquéritos.

Assim, os acusados ficam impunes e a cada ano ocorrem mais mortes com balas perdidas, que podemos chamar de "balas direcionadas", em que os filhos dos trabalhadores favelados são as vítimas fatais. É porque as prisões ou as mortes de delinquentes são mais importantes que a preservação da vida de inocentes, que são vistos como efeitos colaterais de uma guerra urbana.

No Brasil, valorizamos e priorizamos a eliminação de criminosos, quando precisamos focar na investigação dos crimes, prendendo, julgando e punindo com mais celeridade seus autores, utilizando para tanto os recursos modernos que existem na inteligência policial.

Mas, enquanto isso, não acontece, o desamparo social e o adoecimento psíquico acabam se tornando corriqueiros na vida dessas famílias, que recolhem os corpos frágeis de seus filhas e filhas ensanguentados e despedaçados por balas de fuzis ou metralhadoras.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
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