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Notícias | Rio Grande do Sul CRISE HÍDRICA

Estiagem causa perdas nas lavouras e prejudica ecomomia gaúcha

Falta de chuva afeta culturas fundamentais para a geração de riqueza no Rio Grande do Sul

Por João Linden
Publicado em: 22.01.2022 às 07:00 Última atualização: 22.01.2022 às 14:10

Animais magros. Rios e arroios secando. Plantações perdidas. Essas situações que poderiam ser facilmente confundidas com algumas das dez pragas do Egito são decorrências da estiagem que castiga o Rio Grande do Sul, mais severamente desde outubro, quando as chuvas ficaram mais irregulares.

Até 12 de janeiro, 200 municípios decretaram situação de emergência no RS devido à estiagem
Até 12 de janeiro, 200 municípios decretaram situação de emergência no RS devido à estiagem Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini
E as verdadeiras consequências dessa falta de chuva ainda devem ecoar ao longo do ano, tanto no campo como na cidade. "Em função da seca, o PIB (Produto Interno Bruto) do Estado deve ser negativo em 2022", prevê o economista chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz.

E o prognóstico de Luz é baseado em um simples, mas determinante aspecto: 40% do PIB gaúcho é oriundo do agronegócio. "Quando há uma estiagem severa como a atual, não é só o campo que é impactado. 60% da fabricação de máquinas agrícolas do Brasil ocorre aqui no Rio Grande do Sul. E onde elas são produzidas? Na cidade. Onde ficam as concessionárias revendedoras? Na cidade. A economia é afetada por completo, e não só em determinadas regiões", justifica o economista, que ainda cita fertilizantes e agrotóxicos como outros exemplos de produtos industrializados que são diretamente afetados pela estiagem.

Culturas afetadas

As duas culturas mais afetadas pela ausência de chuva no Estado são milho e soja. Dados divulgados pela Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS) dão conta de que as perdas na safra de milho sequeiro já atingiram 59,2% da produção. No milho irrigado o índice é de 13,5% e na soja a perspectiva atual é de 24%. O cálculo é de que as perdas financeiras se aproximem dos R$ 20 bilhões.

"Esse era o momento em que o produtor deveria se capitalizar, inclusive com preços que estão ajudando, mas os custos de produção já serão muito altos e iniciamos de forma melancólica o 2022", lamenta o presidente da FecoAgro, Paulo Pires.

Cadeia produtiva

Tanto o milho quanto a soja são cultivos dos mais importantes para uma série de outras cadeias produtivas. "É só ir ao supermercado e ver a composição dos produtos. Há uma enormidade de mercadorias que utilizam soja", ressalta Luz.

Já o milho, além das produções óbvias, como pipoca, óleo e farinha, é base da ração de animais, especialmente na avicultura. "Portanto, o milho também gera carne, leite e ovos", exemplifica o economista e professor da Feevale, José Antonio Ribeiro de Moura.

Nunca foi tão caro produzir

Se a estiagem tem sido uma grande barreira para o produtor gaúcho, outros fatores da economia transformam o clima seco em uma verdadeira muralha. Aspectos como o câmbio elevado, caos na logística internacional, crise hídrica e encarecimento da energia elétrica devem fazer com que o índice de inflação dos custos de produção (IICP) de 2021 tenha um recorde negativo. "Ainda não está consumado, mas o número deve superar a barreira dos 45%", projeta Luz.

No caso do câmbio elevado, o professor Moura explica, usando os exemplos do milho e da soja, como o Real desvalorizado influencia diretamente no aumento de preço dos alimentos para o consumidor. Como esses dois produtos são commodities, ambos possuem cotação internacional e são negociados em bolsas de mercadorias de futuros - como a Bolsa de Chicago, nos Estados Unidos.

O câmbio elevado torna o produto brasileiro mais competitivo e, por consequência, aumentam as vendas e os lucros dos produtores. "Desta forma, o produto tem apenas uma pequena parcela que fica para o mercado interno, gerando aumento dos preços no Brasil."

Já o economista da Farsul acrescenta que o Real desvalorizado não é vantajoso para o produtor rural mesmo com a possibilidade de vendas para o exterior. "Muitos insumos vêm de fora, aumentando muito o custo da produção. Especialmente para o cultivo de milho", destaca.

Efeito nas gôndolas deve levar mais tempo

Os efeitos da estiagem não serão sentidos imediatamente pelo consumidor. Ao menos não na avaliação de Luz. "Mesmo que tenhamos perdas aqui no Estado, nós não teremos perdas em todos os estados. Então não há risco de desabastecimento e, consequentemente, uma inflação de alimentos", afirma o economista da Farsul.

"Pontualmente, o que pode ocorrer é as pessoas sentirem falta de produtos, especialmente daqueles em que a distância entre o produtor e o consumidor é menor, sobretudo hortifruti", acrescenta Luz.

Entenda o que quebras na safra podem provocar

milho site

Produção de arroz também padece

Fundamental para a cultura do arroz, a irrigação tem sofrido com outra consequência da estiagem: a seca de rios e arroios. De acordo com o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Alexandre Velho, alguns produtores do Estado estão tendo de optar quais parcelas de lavoura devem irrigar em detrimento de outras.

"Há áreas de cultivo que estão sendo abandonadas para dar preferência de irrigação. Isso preocupa e já sinaliza que possivelmente nós não teremos uma produtividade grande", destaca.

Pecuária preocupada

A escassez de milho para nutrir o gado é uma realidade que atormenta os produtores de leite do Estado, especialmente na Serra. O presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, salienta que, mesmo com investimentos em genética e tecnologia, a falta de alimentos é extremamente prejudicial.

"A vaca produz leite quando é bem conduzida, com água de qualidade, conforto e bom alimento em quantidade e qualidade suficiente e adequada para cada vaca conforme seu peso e produção diária", destaca Tang.

Já o Instituto Desenvolve Pecuária já identificou dificuldade de ganho de peso no gado de corte, especialmente nos animais mais novos. O motivo seria o pasto mais escasso e de baixa qualidade nutricional, outras consequências da estiagem.

"Nas pastagens cultivadas de verão o nascimento foi de 25% e as folhas já estão ressecadas. A situação é dramática", observa o presidente da Comissão de Relacionamentos Institucionais e Comerciais do Instituto, João Gaspar de Almeida.

Um seco e longo verão

De acordo com a meteorologista Estael Sias, da MetSul, o tempo pouco chuvoso deve se estender até o outono. "Até estamos tendo algumas pancadas de chuva agora em janeiro, mas em fevereiro e março a estiagem pode se agravar. Esse cenário ainda vai longe", alerta Estael.

Ela ainda acrescenta que não há previsão exata para o término dessa seca. "A chuva de inverno provavelmente vai reverter esse quadro", ressalta a meteorologista que projeta, porém, que começa a chover melhor ainda no outono.

"Será quando teremos mais neutralidade, sem La Niña e frentes frias passando mais devagar pelo Estado. Mas será no inverno mesmo que a gente terá uma recuperação desse quadro de estiagem."

Na feira, produtores lamentam situação

Na feira do produtor, agricultores afirmam que custos aumentaram e produtividade caiu
Na feira do produtor, agricultores afirmam que custos aumentaram e produtividade caiu Foto: João Linden/GES-Especial

Os prejuízos e dificuldades de cultivo não são exclusividades dos grandes produtores. Pelo contrário. Para os pequenos representantes do setor, como os que vendem alimentos na Feira do Produtor de Novo Hamburgo, os efeitos da estiagem podem ser bem mais danosos.

Morador e produtor do bairro Lomba Grande, Elton Thiesen elenca algumas das dificuldades que vem enfrentando desde novembro. "Foi pouquíssima chuva desde então", lamenta.

O agricultor relata que tem gastado bem mais para cultivar produtos de atributos inferiores. "A qualidade e quantidade diminuiu. Estou irrigando de três a quatro vezes por dia, instalei sombrites, enfim, estou fazendo o que posso", conta.

Dentre todos os aumentos de custos provocados pela estiagem, o que mais o assusta é o da energia elétrica. "Infelizmente tenho de acabar aumentando o preço para o consumidor. Não tenho alternativa", revela.

A aproximadamente 15 quilômetros da propriedade de Elton, mas ainda no bairro rural hamburguense, ficam os cultivos de seu irmão Edson. A pequena distância obviamente não altera a relação de ambos com a estiagem.

"Mesmo irrigando com mais frequência, perco cerca de 30% das verduras, frutas e legumes que planto", relata Edson, que vende na Feira do Produtor há mais de 30 anos.

A necessidade de molhar as plantas mais seguidamente causa outro problema para o agricultor: sua fonte de água está secando. "Meu açude está 1,5 metro mais baixo. Se a situação não mudar em um mês, não sei como vai ser. Não sei se não vou ter der parar", preocupa-se.

Apesar dos pesares, ainda vale a pena

Mesmo que os produtores admitam que tenha de passar parte dos custos para o consumidor, muitos dos frequentadores da feira do produtor dizem que as compras ainda compensam. "Está mais em conta que nos supermercados", diz a diretora de arte Amanda Mello.

Já a mãe Maristela Bittencourt e a filha Úrsula relatam que já identificaram aumentos de preços em alguns dos produtos vendidos na feira. "Ainda assim preferimos os alimentos daqui por serem mais fresquinhos e com menos agrotóxicos", diz Úrsula, que é técnica em enfermagem.

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