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Notícias | Região Educação

Pesquisas avaliam a defasagem causada pela pandemia nas escolas públicas da região

Além do Estado, tem prefeitura da região fazendo estudo

Por Matheus Chaparini
Publicado em: 01.06.2021 às 03:00 Última atualização: 01.06.2021 às 09:30

Autoridades e especialistas avaliam efeitos após um ano de salas vazias Foto: Reprodução
Duas iniciativas em andamento buscam identificar lacunas no aprendizado dos jovens em diferentes níveis. A ideia é minimizar prejuízos à educação e reforçar o ensino onde for necessário.

Em 2020 os alunos praticamente não tiveram aulas presenciais. Em 2021, a volta às escolas foi liberada, mas nem todos retornaram. É opcional e muitas famílias mantêm os filhos em casa. Tudo isso criou contrastes.

Ao longo da semana passada, o NH publicou uma série de reportagens mostrando os modelos adotados nas redes municipais de Novo Hamburgo e outros seis municípios da região, além da Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha.

Diversas são as soluções encontradas para tentar garantir a segurança de quem retorna e o aprendizado de quem está em casa. Do material impresso às aulas síncronas, por vídeo. No entanto, é consenso entre educadores que a pandemia deixará uma lacuna no aprendizado.

Para entender esse impacto, Campo Bom começou uma avaliação com os estudantes do 3º ao 9º anos do Ensino Fundamental. Já a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) iniciou o programa Avaliar é TRI. A aplicação das provas começou no dia 24, nas quase 2,4 mil escolas estaduais para estudantes a partir do 2º ano do ensino fundamental.

Diagnóstico

A avaliação diagnóstica é composta por questões objetivas de língua portuguesa e matemática e será aplicada presencialmente e on-line.

São 20 questões de cada disciplina para estudantes do 2º ano ao 4º ano do fundamental. Para o 5º e 6º anos, são aplicadas 22 questões de cada. Os alunos do 7º ano do fundamental até o 3º ano do ensino médio respondem a 26 perguntas de português e 26 de matemática.

O Avaliar é TRI segue até 11 de junho. Após esta etapa, está prevista uma avaliação amostral, a partir da qual serão elaborados indicadores de aprendizagem da rede estadual.

Secretaria lista ações para reduzir prejuízo

De acordo com a Seduc, desde o começo da pandemia o governo do Estado oferece possibilidades para que alunos e professores mantenham o contato pedagógico.

Entre os recursos estão a Internet patrocinada, a distribuição de 50 mil Chromebooks para docentes regentes de classe e coordenadores pedagógicos, o programa Letramento Digital, que ofereceu capacitação aos docentes para as aulas remotas, aulas preparatórias para o Enem por meio da TVE-RS e canal TV Seduc RS, e as plataformas de leitura Elefante Letrado e Árvore, que estão à disposição dos estudantes e professores com acervos de milhares de livros.

"Além da realização de avaliações, que são fundamentais para que seja possível identificar o estado atual do conhecimento dos estudantes, a Seduc também trabalha em um plano de recuperação e aprofundamento de aprendizagens para que possam ser mitigadas as perdas resultantes do período de enfrentamento à pandemia sem aulas presenciais", diz nota enviada pela assessoria de comunicação da Seduc.

Investigando as lacunas

Campo Bom começou uma avaliação voltada aos alunos da rede municipal, que segue até 11 de junho. "A gente não sabe o que foi efetivamente aprendido e o que precisa ser recuperado. Não podemos seguir em frente e deixar lacunas", afirma a secretária de Educação, Simone Schneider.

O resultado deve sair até dez dias após a aplicação das provas e servirá como norteador das ações que a Secretaria de Educação tomará para recuperar as perdas no aprendizado.

A avaliação será destinada a estudantes do 3º ao 9º anos, com questões de português e matemática. Do 3º ao 5º anos, a avaliação será direcionada à alfabetização.

As provas serão aplicadas de forma presencial. Os alunos que permanecem no ensino à distância podem agendar horários para fazer a avaliação isolados. Aqueles cujas famílias não quiserem a ida à escola devem ter outra avaliação, em um segundo momento.

A professora que passou a fazer reforço

A professora Mara Regina Capeletti, de Novo Hamburgo, encontrou uma fonte de renda no meio da crise educacional. Demitida de uma escola particular em 2018, ela passou a dar aulas de reforço para alfabetização de alunos durante a pandemia.

"Percebi essa necessidade, conversando com pessoas conhecidas que têm filhos na alfabetização, e eles simplesmente não conseguiram aprender. Não é culpa do professor, não tem como alfabetizar uma criança on-line", afirma.

Com mais de 20 anos de experiência em escolas públicas e privadas, Mara já trabalhou com alunos do maternal até o quarto ano do ensino fundamental, como professora, auxiliar de educação e orientadora disciplinar.

Atendimento

Em março deste ano, a professora montou um espaço em casa com material didático, quadro e computador e anunciou as aulas em suas redes sociais. Desde então, ela atende individualmente dois alunos de sete anos, que cursam o segundo ano na rede municipal de Novo Hamburgo.

Ela avalia que, para esta faixa etária, a principal dificuldade das crianças é nas habilidades básicas como segurar o lápis com firmeza, recortar com uma tesoura e usar a régua.

A professora acredita que essa geração terá um desenvolvimento acima da média na relação com a tecnologia, mas teme uma defasagem nos aspectos sociais.

"Vai estimular por um lado, mas vai faltar o estímulo da questão humana, do convívio, socialização", conclui.

 

Educação maltratada, alerta especialista

Na avaliação do doutor em Educação e professor da Feevale Gabriel Grabowski, o retorno às atividades presenciais está sendo prejudicado, principalmente, pela falta de investimento em estrutura.

"Em 15 meses de pandemia as escolas não receberam melhorias de estrutura, higienização, janelas maiores, redistribuição de salas, Internet de qualidade e laboratórios, sem falar de bibliotecas em todas escolas e descentralizadas", afirma.

O impacto e o prejuízo da pandemia na educação não dependem tanto da faixa etária ou modalidade de ensino, analisa Grabowski, mas das condições socioeconômicas que o aluno tinha antes e teve durante a pandemia.

Ele cita como fatores influenciadores o acesso a computador, Internet de boa qualidade, bibliotecas e bibliografia digital, apoio familiar, ambiente de estudo e contato direto com a escola e professores. O grau de autonomia dos estudantes também impacta o aprendizado.

Para o professor, "muitas medidas já deveriam estar em andamento e não estão". Ele cita como exemplos o acesso público à Internet, aulas em canais abertos, como rádio, TV e Youtube, e distribuição de livros e materiais didáticos nas casas dos alunos.

Hora errada

Grabowski considera que a educação está sendo "mal gerida e maltratada" no Estado e no País. O especialista defende que é necessário ir além de protocolos e alertas e criar programas concretos de ajuda a professores e estudantes direto nas escolas.

Ele destaca que o Estado já apresentava altos índices de reprovação e abandono escolar antes da pandemia.

O professor faz uma crítica ao Avaliar é TRI, sistema de avaliação lançado pelo governo do Estado. "Em plena pandemia, nestas condições, neste momento, sem o desenvolvimento de outros programas de apoio anteriores, é inoportuno, inadequado e um atravessamento no processo pedagógico em curso."

 

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