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Notícias | Região Mobilidade

O futuro sem filas e sem tranqueiras passa pela nova ponte do Guaíba

Nova travessia será liberada parcialmente em abril do ano que vem e promete acabar com o gargalo que atrasa o desenvolvimento da economia gaúcha

Por Leandro Domingos
Última atualização: 02.11.2019 às 10:03

Nova travessia está sendo construída sobre a água a partir de peças pré-moldadas; já são mais de 20 mil blocos de concreto Foto: Paulo Pires/fotos PAULO PIRES/ges
Aos 64 anos, tendo passado mais de 40 deles na estrada, Antônio Gonçalves Araújo anda meio cansado. Motorista profissional, passa a maior parte do tempo na boleia do caminhão da empresa para a qual presta serviços. Em suas palavras, seu Antônio diz ser um "homem tranquilo". Só perde a paciência quando precisa ficar parado no trânsito. E não tem lugar em que ele fique mais brabo do que na entrada da Ponte do Guaíba, em Porto Alegre. "Às vezes chego a pegar esta ponte levantada três vezes em um único dia", suspira. "Tem dias em que eu ainda consigo ficar bem na beirinha da ponte. Mas, na maioria das vezes, acabo ficando lá adiante", conclui, mirando a Arena do Grêmio. "Leva uns 15 minutos somente para chegar até a ponte depois que a travessia é aberta", desabafa.

 

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Gargalo

Um dos cartões-postais da capital dos gaúchos, com a passagem dos anos, acabou se transformando em um gargalo que freia o tráfego de quem vem do Vale do Sinos e arredores, assim como de outros pontos da região metropolitana. Interrompe, dessa forma, a logística e o desenvolvimento econômico rumo ao sul e o oeste do Estado, bem como a produção gaúcha que vem do sul e oeste para a região metropolitana e norte do Rio Grande do Sul.

Este cenário, entretanto, deve ser alterado a partir de abril do ano que vem, quando o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) promete finalmente entregar a nova ponte do Guaíba. Afinal de contas, o içamento da antiga travessia chega a ser feito de três a quatro vezes por dia, causando quase três quilômetros de congestionamento somente na entrada de Porto Alegre. "Esta obra consiste em uma nova ligação entre o norte, sul e oeste do Estado. Vai liberar o tráfego de navios ao mesmo tempo em que o trânsito segue fluindo sem bloqueio", explica o superintendente do Dnit no RS, o engenheiro Delmar Pellegrini Filho, que acompanhou a reportagem do ABC em uma visita às obras da futura ponte.

A maior obra tocada pelo Dnit no Brasil

Obra é, com segurança, a mais grandiosa em andamento no Rio Grande do Sul Foto: Paulo Pires/PAULO PIRES
O próprio superintendente do Dnit afirma que a nova ponte do Guaíba é a maior obra tocada pela autarquia hoje no Brasil. A construção foi orçada em R$ 800 milhões de investimento, já tendo encostado nos R$ 757 milhões planejados para a execução. Ao todo, o empreendimento ultrapassa R$ 1 bilhão, segundo Delmar Pellegrini Filho. "É que se levarmos em conta todo o investimento feito no reassentamento das famílias, o dinheiro empregado na obra ultrapassa R$ 1 bilhão tranquilamente."

Com 86% da obra já pronta, a futura travessia terá de 12,3 quilômetros, com mais cinco quilômetros de trecho em aterro e 7,3 quilômetros em obras de arte especiais, ponte sobre os canais navegáveis, elevada e viadutos. São 27 metros de largura nos vãos principais. A pista contará com duas faixas de rolamento com acostamento e refúgio central. Conforme previsão do Dnit, 50 mil veículos utilizarão o trajeto diariamente.

Como fica a partir de abril

Motoristas que rumam ao sul pela BR-290 ou BR-448 vão ter um acesso livre, bem como quem faz o caminho inverso do sul rumo à região metropolitana e ao Vale dos Sinos, com a nova ponte. O Dnit estima um crescimento significativo na movimentação sobre a nova estrutura. Aproximadamente 50 mil veículos devem passar todos os dias por ela depois de concluída.

As obras na nova ponte do Guaíba não vão excluir a antiga, é bom dizer. A velha ponte vai continuar tendo o vão móvel içado para garantir a passagem dos navios rumo ao Polo Petroquímico de Triunfo e para as companhias de gás, em Canoas. A diferença é que, a partir da conclusão da nova, não será mais necessário que os motoristas trafeguem por ela. "Só vai passar pela ponte antiga quem quiser", conclui o Delmar Pellegrini, superintendente do Dnit.

Começo da tranqueira

Travessia velha enfrenta longos engarrafamentos quando há içamento Foto: Paulo Pires/PAULO PIRES/GES
Quem guia rumo ao sul pela região metropolitana tem o receio de encontrar tudo trancado por conta do fechamento da ponte do Guaíba. A tranqueira começa justamente no ponto próximo à Arena do Grêmio, pela BR-290. "O problema é da Arena para lá", aponta a vendedora canoense Inês Santos, 31 anos. "Me dá uma agonia porque, mesmo não tendo que pegar a ponte, acabo me atrasando sempre que os barcos têm que passar no rio."

Motorista de caminhão, Édio König, 40 anos, tem a mesma reação. Ele diz chegar a rezar o terço para não pegar a ponte trancada próximo à Arena. "Algumas vezes dou sorte de parar bem na beira do vão móvel da ponte, mas na maioria das vezes pego a tranqueira desde lá da Arena", bronqueia. Aí não há salvação. "Sou obrigado a me atrasar e perder o horário", diz. "Não vejo a hora de inaugurarem esta ponte nova", suspira.

Problema da segurança

O servidor público Augusto Nunes, 34 anos, mora em Porto Alegre, mas trabalha em Eldorado do Sul. Cumpre uma rotina entre idas e vindas pela ponte a pelo menos dez anos. Mais do que se acostumou com o tempo de espera após o içamento do vão móvel. Contudo, com uma coisa, ele jamais vai se acostumar: a insegurança para quem aguarda no carro a liberação da travessia. É que criminosos promovem ataques a motoristas que aguardam no trecho. "Confesso que nunca fui pego de surpresa, mas acho que isso depende mais da sorte que qualquer outro fator", observa. "Um colega meu, por exemplo, sofreu dois assaltos."

O problema não é novo. Faz tempo que delinquentes se valem da parada de veículos para agir, principalmente, pela manhã ou no finalzinho da tarde. O caso mais notório aconteceu em 2017, quando quatro criminosos armados promoveram um verdadeiro arrastão em uma dúzia de veículos que estavam parados no trecho de Porto Alegre, levando em poucos minutos tudo o que era possível entre carteiras, bolsas, celulares e outros objetos pessoais.

Atuando na comunicação social da Polícia Rodoviária Federal, Felipe Barth garante que hoje o içamento é seguido de mobilização tanto por parte da Polícia Rodoviária Federal quanto da Brigada Militar. "Guarnecemos os trechos dos dois lados sempre que possível", frisa. É que além dos assaltantes que ficam à espreita em Porto Alegre, há também pequenos delinquentes que vêm das ilhas do outro lado da água. "Com a liberação da nova ponte vai diminuir muito o fluxo na ponte antiga. Acreditamos que este problema da insegurança está com os dias contados."

Preocupação com a desocupação de áreas

esde o começo, uma das principais preocupações do Dnit com a obra era a desapropriação e desocupação das áreas. A ação, sob a responsabilidade do próprio Dnit, recebeu o orçamento de R$ 200 milhões, dinheiro usado para que cada uma das 350 famílias cadastradas no programa de reassentamento pudesse escolher onde queria morar. Paula Daiane Lopes é uma das contempladas pelo reassentamento.

A diarista de 34 anos deixou a região da Ilha do Marinheiro, onde viveu nos últimos oito anos, para garantir uma casa em Canoas, onde hoje mora com os três filhos menores. "Minha vida mudou para melhor", afirma. "Lá na Ilha era tudo muito complicado. Consegui uma casa bem boa. Cheguei em Canoas e logo consegui emprego e agora vivo bem com os meus filhos", conta. "Todo o processo foi muito tranquilo desde o início."

São 470 acordos judiciais acordo judiciais para a desocupação na Ilha Grande dos Marinheiros. Até o momento, são 130 mudanças de famílias já realizadas para o andamento da obra seguir.
O maior problema, no entanto, é a demora no processo de retirada das famílias que vivem em Vila Areia e Tio Zeca, que ficam ao lado da free way.

E tem mais uma polêmica

Com grande parte da obra da ponte nova já concluída, surgiu um impasse. O trecho no canal Furado Grande, localizado entre as ilhas do Pavão e dos Marinheiros, do outro lado do Rio Jacuí, teria sido construído 44 centímetros mais baixo do que previa o edital. Houve quem dissesse que, em época de cheias, a água invadiria a pista, interrompendo a passagem. O Ministério Público Federal tem cobrado o Dnit desde então sobre o assunto. Entretanto, conforme os engenheiros da construtora Queiroz Galvão, Porto Alegre estaria três metros abaixo d'água antes que a pista precisasse ser interrompida devido à cheia.

Atual estrutura é dos anos 50

Ponte do Guaíba atual é uma obra da década de 50 e precisa de manutenção Foto: Paulo Pires/PAULO PIRES/GES
Até a década de 50, a travessia sobre o Rio Jacuí era feita através de balsas. Foi a partir de 1953 que começou a ser discutida uma alternativa com a saturação das embarcações. A ponte do Guaíba que todo mundo conhece foi projetada na Alemanha, em 1954. As obras tiveram início em 1955, durando até 1958. Na época, chegou a ser considerada a maior obra do País. Inicialmente com um só trevo de acesso, a construção foi ampliada nos anos seguintes.

O tempo passou e o crescimento do movimento de navios que abastecem o Pólo Petroquímico de Triunfo aumentou consideravelmente a frequência com que o vão móvel era içado. Isso fez com que vários problemas técnicos aparecessem. Contratempos mecânicos em rolamentos, mancais e motores tornaram cada vez mais comum a interrupção do processo, razão pelo qual, no início dos anos 2000, começou a se falar de uma nova alternativa para a travessia.

Quando há falha mecânica na atual ponte, mais transtornos. "Hoje, se acontece um problema, somos obrigados a interromper todo o fluxo da região metropolitana rumo ao interior do Estado e vice-versa", esclarece o engenheiro Delmar Pellegrini Filho, do Dnit. "É que esta ponte trabalha com uma estrutura criada ainda nos anos 50. Então existe risco de parar. Pode acontecer a qualquer momento", prossegue. "Só depois de pronta a nova é que vamos poder ficar mais tranquilos."

A CCR ViaSul, assumiu a ponte velha do Guaíba em 15 de fevereiro deste ano e trocou todo o pavimento do vão móvel.

Trabalho de manutenção será facilitado

Cerca de 43 mil veículos passam pela ponte do Guaíba todos os dias, conforme o Dnit. Já pensou todo este movimento freado? Pois já aconteceu antes. Inclusive mais de uma vez. O mais recente transtorno ocorreu quando um problema nas chapas de ferro que fazem a ligação da plataforma do vão móvel da velha ponte interrompeu o trânsito entre Porto Alegre e Guaíba. Eis outra das razões pela qual a nova ponte é mais do que esperada. É que, conforme explica o superintendente do Dnit, com ela em pleno funcionamento, vai ficar mais fácil o trabalho de manutenção periódica necessário para manter a obra antiga também funcionando.

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