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Cotidiano | Entretenimento Livro

Dica de livro: Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman

Na era líquida, as certezas escorrem pelas mãos

Por Marcelo Kenne Vicente
Publicado em: 24.07.2021 às 03:00 Última atualização: 24.07.2021 às 15:08

Há alguns dias, se tornou tendência nas redes sociais a palavra "cringe", uma expressão em inglês que remete à ideia de "vergonha alheia" e que está sendo usada pela chamada geração Z (nascidos de 1995 a 2000) para confrontar a geração Y (nascidos em sua maioria na década de 1980).

A ideia é que tudo que a geração Y gosta seria "cringe". Ok, mas não dá para valorizar essa treta porque já está perdendo a validade. Nos próximos dias, haverá outra expressão em discussão, outro assunto estará em pauta e alguém será "cancelado". Ainda, teremos mais um escândalo político e uma nova série no streaming ou um aplicativo de vídeos substituirão os preferidos do momento. Além disso, pode ser que aquele casal famoso se separe, você perca seu emprego ou arrume um novo trabalho e assim por diante.

A lógica de que tudo dura pouco e que não há certezas já vem sendo observada há alguns anos e a cada dia se potencializa. Em 2001, a banda Titãs resumiu bem esse contexto com a música "A melhor banda de todos os tempos da última semana". Hoje, surge um novo artista pop lançando um videoclipe polêmico e será citado como um dos melhores da história. Amanhã, será esquecido.

Zygmunt Bauman Foto: Wikipedia Commons

O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, nascido em 1925 e falecido em 2017, dedicou boa parte de seus estudos à reflexão sobre essa característica da sociedade e lançou a obra Modernidade Líquida (2000).

Segundo Bauman, a humanidade passou pela era da modernidade sólida - iniciada com o Iluminismo, chegando à Revolução Francesa e depois à Revolução Industrial -, que reorganizou a civilização em uma estrutura sólida, baseada em sistemas políticos e de mercado bem definidos. Capitalismo, socialismo, democracia, ciência, petróleo, emprego e casamento duradouros, família tradicional, religião, entre outras certezas, foram peças importantes na organização do mundo. Só que, como teoriza o sociólogo, o avanço científico e tecnológico, as lutas por direitos civis e as mudanças no mapa geopolítico - a queda do Muro de Berlim, por exemplo -, ajudaram a criar uma nova era, não mais sólida, mas, sim, líquida. Bauman diz que esta representação de líquido se dá pelo estado de fluidez, de mobilidade e de fácil mudança de forma. O que é líquido escorre pelas mãos. Nada é definitivo nas relações de trabalho e amorosas e no que diz respeito às preferências e às crenças pessoais.

No livro Modernidade Líquida, que foi relançado em junho pela editora Zahar, o sociólogo usa uma linguagem mais acessível, embora ainda seja necessária muita atenção para compreender seu pensamento. Dividido em cinco conceitos - emancipação, individualidade, tempo/espaço (dica: depois do Prefácio, leia este), trabalho e comunidade -, o conteúdo se aprofunda sobre as inconstâncias do milênio e, apesar de sua primeira edição ter sido lançada há duas décadas, é bem atual. Ainda mais considerando esses tempos de pandemia, que acabaram trazendo novas incertezas. Até podemos criar hipóteses sobre como será nossa sociedade daqui em diante, mas há chance de errarmos feio a previsão. O trabalho, o amor, a cultura, o conhecimento e a tecnologia mudam e fluem sem que tenhamos tempo de entender o que se passa. Instantaneidade é a palavra-chave. "Se a modernidade sólida punha a duração eterna como principal motivo e princípio da ação, a modernidade fluida não tem função para a duração eterna. O curto prazo substituiu o longo prazo e fez da instantaneidade seu ideal último", diz Bauman.

 

 

O escritor

Judeu polonês, Zygmunt Bauman foi com sua família para a União Soviética após a invasão da Polônia pelos nazistas. Serviu para lutar contra os alemães na Segunda Guerra e, mais tarde, voltou ao seu país. Conciliou sua carreira militar com os estudos, mas os atritos com o governo comunista fizeram com que saísse novamente para seguir sua carreira acadêmica em Israel e Inglaterra. As experiências traumáticas e crenças moldaram as ideias de um dos maiores intelectuais contemporâneos.

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