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Viver com Saúde

Estudo sugere que mentimos 200 vezes por dia. Será verdade?

Mentira traz prejuízos nas relações sociais e até perante a Justiça. Mas… e quando é teu cérebro que te engana?
11/02/2019 03:00 11/02/2019 13:53

Foto por: Divulgação
Descrição da foto: Marina Boscardin, psicóloga
Pode ser bem pequena, do tipo: "nossa, sua roupa nova é linda" ou chegar ao ponto de comprometer a liberdade de uma pessoa acusada de um crime e mandá-la para a cadeia. Mentira é mentira e torço todos os dias para que tenha mesmo pernas curtas e seja logo descoberta. Há, porém, estudos que defendem que a mentira é tão frequentemente usada na nossa rotina que já é parte fundamental dela. Um dos levantamentos, feito nos Estados Unidos, sugere que mentimos aproximadamente 200 vezes por dia, seja para elogiar a comida da mãe ou para adiar a entrega do trabalho de escola, não importa a quem ou a idade dos envolvidos. Se realmente for verdade (vai que é mentira, não é?), então o dado significa que mentimos aproximadamente uma vez a cada cinco minutos.

Repetição

Mas será que se esse mau hábito for repetido por várias vezes, o mentiroso vai tomar aquela ideia como verdade? "Pelo fato de as mentiras serem algo criado de propósito, é muito difícil que a pessoa passe a acreditar em algo que sabe que ela própria criou. É mais provável que em caso de psicopatologia, como na mentira patológica, por exemplo (também conhecida como mitomania), o indivíduo possa confundir fantasia com realidade, acreditando nas suas próprias mentiras. Neste caso, é importante diferenciar as mentiras das falsas memórias, pois as últimas são tomadas como verdades absolutas", explica Marina Kayser Boscardin, psicóloga especialista em Perícia Psicológica Forense e representante do Instituto de Psicologia Professor Jorge Trindade.



  • Closeup of a business man with his hands behind his back and fingers crossed
    Foto: Youdge
  • Marina Boscardin, psicóloga
    Foto: Divulgação

Omitir versus mentir

Mentirosos de plantão já pensam em uma estratégia "quase" eficiente para não precisar ter que inventar uma história cabeluda: o fato de simplesmente omitir. Marina lembra, porém, que omissão é diferente de mentira. "Omitir significa simplesmente não mencionar algo, enquanto mentir significa distorcer propositalmente e criar elementos inverídicos. É importante citar que, às vezes, a memória nos prega peças. Por medo de não conseguir lembrar de uma coisa e, assim, correr o risco de omitir, nosso cérebro, na tentativa de preencher essas lacunas, pode criar memórias nem sempre verdadeiras."

Na frente das autoridades

Mentirinha ou mentira gigante, na frente das autoridades ela é bem mais apurada. A especialista em Perícia Psicológica Forense ressalta que no ambiente jurídico ou policial outras variáveis são levadas em conta, além do depoimento daquele acusado. "Se o contexto como um todo revela contradições com relação ao discurso da pessoa, pode-se começar a suspeitar quanto à mentira. Há algumas formas de tentar identificar se uma pessoa está mentindo ou não. Porém, nenhuma delas é 100% garantida. Ainda assim, os profissionais que atuam na área dos interrogatórios podem utilizar-se da observação da forma como o sujeito fala, os gestos, a presença ou não de sentimentos, o olhar e as expressões como forma de auxiliar na avaliação. Porém, ainda assim, esse tipo de avaliação não garante que se possa chegar à certeza sobre a mentira, devendo ser feita com muita criteriosidade e cuidado, a fim de não chegar a conclusões precipitadas, evitando assim cometer injustiças", cita.

E erra quem assiste a muitos filmes de ação e logo aposta no polígrafo, conhecido também como detector de mentiras, para esta tarefa de auxílio nas investigações. "Diversos estudos científicos desaconselham a utilização do polígrafo, pois tal teste é baseado nas mudanças fisiológicas apresentadas pela pessoa enquanto ela responde a algumas perguntas. O fato da pessoa apresentar mudanças fisiológicas enquanto fala não pode ser diretamente associado à mentira ou dissimulação.

Por exemplo, uma pessoa que sabe ser inocente de um crime do qual está sendo acusada tenderá a apresentar reações fisiológicas (de medo, por exemplo) ao ser interrogada acerca do crime. Já um indivíduo que de fato cometeu o crime, mas que apresenta características de sociopatia, poderá manter-se sem qualquer sinal fisiológico durante o interrogatório", detalha a profissional.

Mas eu te juro que a chave estava aqui!

Ah, esse nosso cérebro tão fantástico e ao mesmo tempo cheio de informações! É capaz até mesmo de produzir falsas memórias, o que, conforme Marina, não são a mesma coisa que mentiras. "São memórias sobre fatos que o sujeito acredita realmente terem acontecido. A falsa memória ocorre de forma inconsciente, enquanto a mentira é criada conscientemente. É uma falha natural da memória, considerada algo normal em nossa cognição. Ao longo de nossa vida, todos nós criamos diversas falsas memórias e não nos damos conta, justamente porque uma falsa memória é como se fosse uma verdade para a pessoa que lembra.

E as falsas memórias não são necessariamente criadas a partir de eventos traumáticos, podendo referir-se a vivências do cotidiano. Um exemplo de falsa memória corriqueira é quando temos certeza que deixamos um objeto em determinado local, e inclusive temos a recordação nítida do momento em que o deixamos lá, quando na verdade estava em outro local", explica.

A psicóloga ainda destaca os danos causados pelas falsas memórias podem ir além daquela bronca do pai e incluir mais pessoas. "Quando uma falsa memória sobre um evento grave, como um crime, por exemplo, é criada, isso pode trazer consequências muito sérias, como a prisão de pessoas inocentes. Isso porque quando a suposta vítima contar sobre o crime, ela mesma estará acreditando que verdadeiramente aconteceu. As falsas memórias podem ser criadas pela própria pessoa ou geradas a partir de sugestões de terceiros. Em nossa prática profissional existem diversos casos nos quais crianças são induzidas a acreditaram terem sido abusadas sexualmente. Com a repetição da história ao longo do tempo, essas crianças tendem a realmente acreditar que o abuso ocorreu com elas, passando a descrever o evento como se fosse real", cita.

E dá depois para guiar essa pessoa de volta à verdade? "Pelo fato de as falsas memórias serem muito semelhantes às memórias verdadeiras (mesma base cognitiva e neurofisiológica), após sua instauração pode ser difícil de ser revertida. No entanto, algumas falsas memórias criadas durante a infância, por exemplo, podem sim ser percebidas na vida adulta, principalmente em processo de psicoterapia. Nesse sentido, a psicoterapia é muito importante, pois em qualquer caso ajuda o sujeito a se conhecer melhor e descobrir as suas próprias verdades, não vivendo assim em um mundo de falsas recordações", explica Marina.

O corpo realmente dá sinais da mentira?

Muitas pessoas já ouviram sobre técnicas de análise do corpo da pessoa durante uma fala, como a testa mais franzida, o olhar para o alto e à esquerda, o suor das mãos, que prometem detectar a mentira. Marina lembra que é preciso muito cuidado ao interpretar esses sinais. "Por influência de alguns programas de televisão ou por conhecimentos do senso comum, as pessoas tendem a acreditar que quem mente sempre apresenta sinais físicos que atestam sua mentira. Isso não se comprova cientificamente, visto que as alterações físicas associadas à mentira (como suar, desviar o olhar, tremer, entre outros) podem se dar devido a diversas outras condições. Assim, uma pessoa que está simplesmente nervosa pode apresentar tais sinais físicos sem estar necessariamente mentindo. De forma inversa, uma pessoa pode estar mentindo sem emitir absolutamente nenhum indicativo no seu comportamento", detalha a especialista.

Desta forma, conforme a psicóloga, aquele pavor diante de um questionamento em busca da verdade não necessariamente significa que o encurralado ali "entregou o jogo". "Quando a pessoa sente medo, a tendência é que emita alguns sinais fisiológicos como suor, desvio do olhar, tremor, entre outros. Porém, o fato de a pessoa estar com medo não significa necessariamente que esteja mentindo. Temos que ter muito cuidado para não julgar sem ter o conhecimento aprofundado do fato. A verdade é que não há como ter absoluta certeza se uma pessoa está mentindo ou não", cita.

Não mente pra mãe, guri!

Até estes pequenos seres inocentes também podem "escorregar" na hora de falar a verdade. Marina explica como detectar a mentira nas crianças. "Nas pequenas, por exemplo, é comum que, quando estão mentindo, utilizem palavras e expressões que não correspondem ao vocabulário esperado para a sua idade. Também é comum que as crianças repitam sempre o fato exatamente da mesma maneira e sem expressar nenhum tipo de sentimento", alerta.

E como então, explicar para que elas que é errado não dizer a verdade? "Crianças muito pequenas têm dificuldade de compreender algumas noções entre o certo e o errado, a verdade e a mentira. Tanto é que acreditam no 'mundo de faz-de-conta'. À medida em que vão crescendo, elas passam a ser capazes de identificar a diferença entre o real e o imaginário. Isso é muito importante de ser ensinado, tanto em casa quanto na escola, pois estes são os ambientes capazes de fornecer a elas as noções básicas educacionais", reforça.

Correio de Gravataí
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