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Crônica

Sobre obituários

Os obituários, o jornalismo e os verbetes de enciclopédia se misturam na Posteridade
26/02/2019 23:59 27/02/2019 00:42

Faz alguns dias, morreu Karl Lagerfeld, que em seu próprio domínio foi um daqueles gênios difíceis de definir ou resumir. Como tantas vezes acontece, seja no caso de gente famosa ou não, é sempre curioso como as matérias, não importa o quão extensas, são incapazes de socar no espaço disponível toda a complexidade de uma obra, de um legado ou das nuances de uma personalidade. Isso é válido para uma celebridade em Paris tanto quanto para um amigo aqui da vila. A vida desafia qualquer resumo.

E aí vem uma reflexão, sobre a perenidade dos obituários, que são estas sínteses biográficas que se publica quando alguém morre. Há algo intrinsecamente injusto neles, pela maneira como são obrigados a sintetizar trajetórias, transformar décadas em frases, revezes em vírgulas, perdas em pontos finais. Apesar disso, desse laconismo com que mesmo os bons obituários reduzem a uma orelha de livro a coleção em vários volumes de uma vida inteira, eles são, quem diria, uma das poucas instituições jornalísticas que seguem firmes sem sinal de mudança nesta nossa época em que toda a imprensa se vê às voltas com um futuro incerto. De blogs a posts no Twitter, sempre que morre alguém famoso não faltam obituários, seja on-line, seja nos jornais impressos.

Talvez seja uma característica humana, ou, ao menos, própria deste nosso estilo de vida confinado em cidades barulhentas e neuróticas. Só paramos para pensar verdadeiramente em alguém quando morre. Daí a instituição dos obituários, que são a última, e infelizmente muitas vezes também a primeira, reflexão séria que dedicamos a uma pessoa. Quando morrer a gente enterra, diz a expressão dos cínicos. Falta acrescentar: e daí escrevemos um obituário.

Coisa ainda mais curiosa, o obituário vira também uma espécie de lápide virtual. Este texto curto biográfico se confunde com o verbete da Wikipédia. Na hora da notícia, é o verbete da enciclopédia da Internet que abastece o obituário. Depois, ele acaba incorporando as informações mais importantes dos noticiários e postagens da ocasião do falecimento, de maneira que a própria Posteridade lerá, na verdade, uma variação do obituário. Se não outra coisa, este poderia ser o derradeiro testemunho do papel cultural imorredouro do jornalismo.

Sobre obituários e jornalismo, aliás, há uma história engraçada. Existe um texto que costuma ser compartilhado entre editores e que circula em escolas de comunicação, descrevendo como era a seção de falecimentos de um grande jornal norte-americano, no auge dos impressos. A crônica fala de um editor que passava seus dias em uma sala abarrotada de arquivos, cada um com a biografia curta de uma pessoa famosa ainda viva. As informações eram meticulosamente atualizadas, para que no devido tempo, após o falecimento, integrassem os obituários. A prática se perdeu, naturalmente, nesta época de Internet, que entre outras tantas coisas é um banco de dados gigante.

Ainda assim, seria interessante a gente alinhavar um último obituário para ir atualizando, só para o caso de necessidade. Seria mais ou menos assim:

"Morreu ontem a imprensa livre e crítica, após uma longa batalha pela vida. Nascido entre o século XIX e o século XX, mas com raízes mais velhas que iam até a Antiguidade, o Jornalismo Moderno prestou grandes contribuições para a civilização contemporânea, entre as quais a vigilância permanente contra abusos do poder e atrocidades em geral. Passou por coberturas emocionantes, noticiou vitórias e também preocupações. Divulgou serviços, prestou esclarecimentos, lutou pela pluralidade de ideias, nunca desistiu de tentar transformar o mundo. Teve momentos difíceis também, quando foi acusado de manipulação, de sensacionalismo ou de trivializar desgraças e até de se vender. Nos últimos anos, perdeu bastante espaço para compartilhamentos nas redes sociais sem checagem de fatos e, principalmente, fake news, embora mantivesse teimosamente seu espaço e viesse até investindo em produção multiplataforma. O corpo será velado na capela XXXXXX e o féretro sairá às XXXXXX horas para o cemitério XXXXXX [não esquecer de atualizar estes dados para publicar]."

Vamos torcer que o Jornalismo não precise de obituário. Talvez ele seja com o rock-and-roll, que jamais morrerá; como Elvis, que não morreu; ou como Mark Twain, que surgiu em pessoa para classificar como um pouco exageradas as notícias sobre a própria morte. Mas, por via das dúvidas, não delete o arquivo. Sabe-se lá, vai que o Facebook trave na hora em que precisarmos dele.


Correio de Gravataí
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