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Cris Manfro

Vergonha do sofrimento

Nossos sofrimentos não devem servir para nos vitimar, nem rotular, classificar e muito menos envergonhar.
27/01/2019 06:00 27/01/2019 11:22

Cris Manfro NOVO Cris Manfro é psicóloga clínica, terapeuta de família e casal e mediadora familiar acmanfro@terra.com.br

Quando ele chegou, disse estar constrangido de contar a sua história. Mas parecia um homem decidido e forte. Era um homem de sucesso. Quando começou a relatar, o constrangimento apareceu. Um misto de desconforto, de incômodo e mal-estar. Ele não tinha feito nada de errado, ilegal ou que merecesse qualquer repressão. Muito pelo contrário. Ele foi brilhante em como enfrentou o mundo, e no encaminhamento que deu a sua vida e as situações vividas.

Quando foi relatando a sua história, ficou claro que ele tinha muita vergonha do que tinha sofrido e da vida dura que ele tinha vivido. Brincou comigo dizendo que a pobreza tinha saído da sua vida, mas não de dentro dele. Nenhuma das situações que ele viveu foi de responsabilidade dele, tampouco ele foi o causador. Ele, sim, não teve escolha, não teve voz e nem vez, apenas sofreu e junto com o sofrimento veio a vergonha. Às vezes a vergonha nasce dentro da família, quando um pai diz: “Isso não é coisa para você, meu filho”, dando a entender que a criança não pode sonhar em crescer, ou ousar buscar coisa melhor na vida. A vergonha também nasce do passado e das próprias origens.

Ele me dizia que a vergonha dele era de ter sido, como se definiu, um “Zé ninguém”, e me fez pensar: Quem de nós vez ou outra não tem ainda vergonhas adormecidas que volta e meia vêm nos assombrar? Quem de nós já não se sentiu envergonhado por ter passado certas coisas na vida? Como se você tivesse causado, ou fosse culpado? Engraçado dizer, mas a pessoa, além de passar pelo sofrimento, ainda ganha a culpa e a vergonha. Comum em situações como ter passado por violência, abuso ou traição.

A nossa história e as situações vividas acabam sendo computadas negativamente, como se fosse um erro, ou um defeito nosso. A sensação de inadequação persiste em muitas pessoas, independente do quanto se superaram. Acabam se vendo como algo que é externo e feio ao mundo idealizado e de como deveria ser. Mas o verdadeiro erro é renegarmos o passado, desqualificando uma história que nos compõe. Com capítulos que gostaríamos de apagar, com capítulos que gostaríamos de reeditar, mas que nos dá o tom, a cor e o caminho da vida.

Nossos sofrimentos não devem servir para nos vitimar, nem rotular, classificar e muito menos envergonhar. Porque estamos sempre nos reinventando, aprendendo, mudando e nos superando. Tendo a história pessoal como base, mas que permite atualizações diárias e que são necessárias diárias, para que a vergonha pelos sofrimentos, ou pelas sensações de ser inadequado, não persista.


Correio de Gravataí
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