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Notícias | Região Rio Gravataí

Representante do MST assume a presidência do Comitê Gravataí

Comitê responsável pela gestão da água do Gravataí inova: pela primeira vez em três décadas, grupo será presidido pelo setor agrícola, e por um representante do MST.

Por Eduardo Torres
Última atualização: 12.06.2019 às 10:35

Foto por: Incra
Descrição da foto: Produção de arroz é, historicamente, alvo das críticas pela escassez de água no Rio Gravataí
Pela primeira vez, em 30 anos, o Comitê de Gerenciamento da Bacia do Gravataí será presidido nos próximos dois anos pelo setor agrícola. Mas não será uma representação nada tradicional. Também de maneira inédita no Estado, um comitê de bacia será presidido por um representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O engenheiro agrônomo Marthin Zang, 34 anos, é filho de assentados do Assentamento Filhos de Sepé, iniciado em 1998, em Viamão, e o atual responsável técnico pela gestão da água no cultivo do arroz orgânico feito pelo movimento.

Em tempos de acirramento da antítese entre ruralistas e o MST, a região vai na contramão. Aqui, como faz questão de enfatizar o novo presidente do comitê, "prevalece o diálogo, independentemente da entidade que cada um representa ou das crenças e modelos de desenvolvimento que cada um defenda". Ele foi eleito por unanimidade entre as 34 entidades votantes na reunião desta terça-feira (11), em Cachoeirinha. Contou, entre outros, com os votos dos sindicatos rurais de Santo Antônio da Patrulha e de Gravata, além dos representantes do setor industrial que atuam na bacia do Gravataí.


"A água é uma só e é problema de todos. No comitê, nós trabalhamos correlações, com debate e autocrítica. O setor agrícola chegou à presidência do comitê de maneira unânime porque o setor está aberto a este diálogo. É um setor responsável, sim, por boa parte da captação da água do rio e da poluição desta água, mas não estamos aqui só para apontar as responsabilidades de cada um. Estamos aqui para mostrar que cada setor pode assumir a sua responsabilidade na gestão da água e aceitar os desafios para melhorar", diz.

Cobrança pela água

O principal desafio dos dois próximos anos de gestão do comitê será o de implantar o projeto-piloto de cobrança pelo uso da água. O processo havia evoluído até o final do ano passado, com a listagem de projetos a serem atendidos com a futura arrecadação e com o início dos estudos de uma fórmula de cobrança a cada um dos setores usuários do Rio Gravataí. Com a mudança do governo estadual, no entanto, o processo voltou à estaca zero.

De acordo com Zang, não há um prazo para implantação da cobrança, que dificilmente terá um modelo implantado até o final deste ano.

"Queremos entender primeiro qual é, afinal, a proposta do Estado e levar isso para a câmara técnica do comitê. É um debate novo e precisamos chamar a sociedade para ele, porque vai impactar na vida de todos", diz o novo presidente.

Foto por: MST/Divulgação
Descrição da foto: Em Viamão, está a maior área plantada de arroz agroecológico na América Latina
Diferente do modelo anterior, agora, a ideia seria elencar uma ou duas propostas prioritárias a serem executadas para melhoria da qualidade do Gravataí e, a partir delas, iniciar a cobrança por setor.

O princípio da cobrança pelo uso da água segue a lógica de um condomínio. Os usuários (abastecimento público, indústria e agropecuária) contribuem para que recursos sejam arrecadados e aplicados em projetos de melhoria das condições do rio. É diferente da conta de água que cada um já paga. Esta, é somente a cobrança pelo serviço de coleta, tratamento e distribuição da companhia.

Cultivo sem agrotóxicos

Zang substitui o geólogo Sérgio Cardoso, que presidiu o comitê nos últimos quatro anos e seguirá como membro da nova diretoria. O agrônomo traz para a liderança do comitê uma experiência muito bem sucedida no Assentamento Filhos de Sepé. Na área vizinha de um dos pontos mais sensíveis da bacia do Gravataí — o Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos —, eles desenvolvem a maior área cultivada com arroz agroecológico (sem uso de agrotóxicos) da América Latina. No assentamento também não é captada água diretamente do rio, mas da barragem existente naquela localidade, que acaba, nos períodos de seca, também fornecendo água para a região de nascentes do Rio Gravataí.

"A nossa ideia é a coalizão de forças, porque o objetivo comum no comitê é o bem de toda a população da região. Se um produtor capta água do Rio Gravataí e usa agrotóxicos, ele está convidado a dialogar no comitê sobre formas de diminuir o seu impacto na bacia, assim como quem produz o orgânico. Todos nós temos problemas de gestão que precisam de ajustes pelo debate que o comitê proporciona", avalia Zang.

É no comitê que se definem as políticas de gestão da água na região que abrange Gravataí, Cachoeirinha, Canoas, Glorinha, Santo Antônio da Patrulha, Alvorada, Viamão e Porto Alegre. No caso do Comitê Gravataí, inovações — como a escolha de um representante do MST para a presidência e a iniciativa do projeto-piloto pela cobrança da água no Rio Grande do Sul — não são novidade. Foi primeiro comitê no Estado a oficializar o seu Plano de Bacia e a definir o enquadramento da qualidade da água do rio.

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