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Risco à saúde

Rio Gravataí carrega coquetel de veneno do campo para a cidade

Relatório do Ministério da Saúde aponta a presença de 17 tipos de agrotóxicos na água coletada pela Corsan em Gravataí. Substância proibida no país foi encontrada em níveis alarmantes
22/04/2019 18:33 24/04/2019 08:44

Foto por: Ministério Público
Descrição da foto: Em 2017, quatro produtores tiveram licenças caçadas pela liberação de agrotóxicos no rio
Um perigo invisível engrossa a lista de problemas do castigado Rio Gravataí. Entre 2014 e 2017, uma lista de pelo menos 17 tipos de agrotóxicos — alguns deles de uso proibido no país —, entre 27 analisados no Brasil, foi detectada em uma série de testes da qualidade da água bruta, antes do tratamento, feitos pela Corsan em Gravataí ao longo deste período, e que formam o banco de dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde.

As consequências do consumo destas substâncias, apontam estudos internacionais, estão vinculadas à maior incidência de câncer e distúrbios hormonais e reprodutivos em humanos. Os dados foram revelados neste mês pela Public Eye e Agência Pública, e mostram que, em todo o país, uma a cada quatro cidades tem água contaminada por agrotóxicos.

Em 2018, novas coletas foram feitas, e o resultado ainda não é público mas, de acordo com Paulo Ricardo Dreyssig, que é o coordenador regional do Vigiágua — setor da Secretaria Estadual da Saúde dedicado às análises da água —, "há alguns anos as amostras têm demonstrado um padrão nas substâncias encontradas no Rio Gravataí". E o que é pior, como alerta o especialista:

"A maior parte destes produtos químicos não é eliminada no tratamento feito pelas companhias para o abastecimento público. O trabalho para reverter este quadro precisa ser mais intenso na origem, com uma questão de educação mesmo sobre as consequências do uso indiscriminado de agrotóxicos".


É sabido que a origem dos venenos está nas lavouras de arroz da região próxima às nascentes do Rio Gravataí, e, entre as substâncias encontradas na água de coletada em Gravataí, chama a atenção, e é destacada no relatório nacional, a presença do inseticida Aldrin, que era usado intensamente para o controle de larvas no plantio do arroz entre os anos 1960 e 1970, mas, desde 1985, é proibido no país, por estar na lista de poluentes orgânicos persistentes (POPs), que dificilmente são degradados no ambiente. O Aldrin foi encontrado em duas das seis amostras para as quais foi analisado no período entre 2014 e 2017.

"É uma surpresa para mim que este produto tenha aparecido nas amostras. Nós não recomendamos o seu uso e ele está banido do país", salienta o pesquisador do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), Rafael Nunes dos Santos.

O detalhe é que o Aldrin, encontrado em 86% das cidades brasileiras onde havia agrotóxicos na água, não foi o único POP detectado na água que é captada em Gravataí. Por aqui, também foi encontrado o Endrin, que é um praguicida, basicamente, com as mesmas propriedades do outro produto. Mesmo sendo considerado extremamente tóxico no Brasil, esteve presente em, 83% das amostras nacionais.

"Infelizmente, não temos estrutura para detectar algum uso específico de produtos ilegais e sem registro. Não é possível descartar que tenha acontecido", avalia o engenheiro agrônomo Vágner Martini dos Santos, que representa o Irga entre os arrozeiros da região do Vale do Gravataí.

O relatório do Ministério da Saúde não especifica as datas em que cada substância foi encontrada, mas é possível que a descoberta de venenos proibidos esteja vinculada à ofensiva do Ministério Público, em conjunto com a Fundação Municipal do Meio Ambiente (FMMA), em novembro de 2017, contra agricultores flagrados despejando um verdadeiro lodo diretamente no Gravataí. Quatro produtores tiveram suas licenças suspensas pela Fepam.

De acordo com Rafael dos Santos, todo o trabalho do Irga tem sido direcionado às boas práticas no plantio e colheita do arroz. Para evitar a descarga de agrotóxicos no manancial, por exemplo, é recomendável a manutenção da água com o agrotóxico mais tempo armazenada na propriedade, até que a substância química tenha sido eliminada.

"Mas a nossa maior ênfase está na pesquisa genética do arroz, no desenvolvimento de plantas mais resistentes a fungos e insetos, o que naturalmente reduz a demanda por agrotóxicos. Este é o trabalho que desenvolvemos no campo experimental de Cachoeirinha", explica.

Um estudo de 1977 demonstrou que, nem mesmo após o processo industrial do arroz, o Aldrin, encontrado no Rio Gravataí, provavelmente como resquício arrozeiro, era eliminado do grão e, portanto, acabava sendo absorvido no momento da alimentação. De acordo com Santos, o Irga neste momento atualiza suas linhas de pesquisa, justamente para avaliar os riscos de contaminação do arroz após o uso de agrotóxicos, que até hoje não estão bem claros para os especialistas.

Foto por: Prefeitura de Gravataí
Descrição da foto: Rio registra 17 dos 27 tipos de agrotóxicos analisados em todo o país
O fato é que o controle brasileiro aos agrotóxicos é bastante frouxo em comparação à União Europeia. Na lista de 17 "defensivos" agrícolas em Gravataí, nove são associados a doenças crônicas, mas somente um dos produtos foi atestado em volume acima do aceitável na água. Se os mesmos produtos fossem encontrados na União Europeia, seriam dez agrotóxicos encontrados acima do padrão considerado seguro. O caso mais emblemático é o do glifosato, que foi encontrado em um de cinco testes feitos em Gravataí, mas raramente soou como alarme a detecção deste veneno nas águas brasileiras.

Pudera, enquanto na Europa só é considerado seguro um índice de 0,1 miligramas do produto por litro de água, aqui, é permitido até 500 microgramas por litro. Este é o pesticida mais consumido no Brasil. Desde o começo do ano, 183 novos agrotóxicos tiveram a comercialização autorizada no país pelo Ministério da Agricultura.

A lista de venenos no Gravataí

Aldrin: Foi o único produto encontrado com concentração acima dos níveis seguros na água do Gravataí. É um inseticida que consta na lista dos poluentes orgânicos persistentes (POPs), com uso proibido no Brasil desde 1985. Foi usado intensamente no plantio de arroz para conter larvas entre as décadas de 1960 e 1970. Encontrado em dois de seis testes.

Alaclor: herbicida que consta na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como altamente perigoso, mas no Brasil, consta como mediamente tóxico. É usado para conter ervas daninhas no plantio do arroz. Pesquisas o relacionam a problemas endócrinos e hormonais. Encontrado em dois de seis testes.

Atrazina: herbicida que consta na lista da PAN como altamente perigoso, mas no Brasil, é mediamente tóxico. Relacionado a problemas endócrinos e hormonais. Encontrado em dois de seis testes.

Carbendazim: fungicida que consta na lista da PAN como altamente perigoso e no Brasil é classificado como mediamente tóxico. Usado para combater a chamada "pinga preta" no arroz. Causa danos ao DNA e ao sistema reprodutivo. Encontrado no único teste em que foi analisado.

Clordano: praguicida na lista da PAN como altamente perigoso e considerado extremamente tóxico no Brasil. Relacionado a danos endócrinos e hormonais. Encontrado em dois de seis testes

DDT: inseticida na lista da PAN como altamente perigoso e extremamente tóxico para os padrões brasileiros. Cancerígeno em humanos, além de afetar o sistema imunológico e reprodutivo. Encontrado em um de dois testes.

Glifosato: herbicida mais comercializado no Brasil, que consta na lista da PAN como altamente perigoso, mas pelos padrões brasileiros é pouco tóxico. É um provável cancerígeno. Encontrado em um de cinco testes.

Lindano: pesticida presente na lista da PAN como altamente perigoso e extremamente tóxico pela legislação brasileira. Relacionado a problemas endócrinos e hormonais. Encontrado em dois de cinco testes.

Permetrina: inseticida na lista da PAN como altamente perigoso e mediamente tóxico no Brasil. Considerado cancerígeno. Encontrado em dois de quatro testes.

Trifluralina: herbicida na lista da PAN como altamente tóxico, mesmo padrão considerado pela legislação brasileira. Relacionado a problemas endócrinos e hormonais. Encontrado em dois de quatro testes.

Endossulfan: inseticida presente na lista da PAN como altamente perigoso e no Brasil é considerado extremamente tóxico. Encontrado em dois de seis testes.

Endrin: um praguicida que faz parte dos POPs, de uso proibido no Brasil desde 1985, mas encontrado em concentração dentro do nível considerado de segurança no país. Encontrado em dois de seis testes.

Metamidofós: consta na lista da PAN como altamente perigoso e altamente tóxico no Brasil. Encontrado no único teste em que foi analisado.

Metolacloro: herbicida com alta persistência no ambiente, considerado mediamente tóxico no Brasil. Encontrado em dois de seis testes.

Molinato: herbicida presente na lista da PAN como altamente perigoso e considerado altamente tóxico no Brasil. Suspeito de causar câncer e afetar o sistema reprodutivo. Encontrado em dois de seis testes.

Pendimentalina: inseticida presente na lista da PAN como altamente perigoso. No Brasil, é mediamente tóxico. Encontrado em dois de quatro testes.

Simazina: herbicida que, em estudo norte-americano se mostrou diretamente relacionado a problemas no sistema reprodutivo de ratos. No Brasil é considerado mediamente tóxico. Encontrado em dois de seis testes.

Correio de Gravataí
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