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Origem de Gravataí

Aldeia dos Anjos no caminho das Missões

Cruz Missioneira foi inaugurada na entrada de Gravataí como marco da "última missão" dos índios guaranis na origem da cidade
12/04/2019 14:29 12/04/2019 15:38

Foto por: GES
Descrição da foto: Prefeitos da região das Missões vieram para a inauguração da cruz
Quando a última leva, com cerca de mil índios, chegou à Aldeia Nossa Senhora dos Anjos, vindos dos Sete Povos das Missões, arrasados pela Guerra Guaranítica, em abril de 1763, traziam na bagagem tão somente duas cruzes (uma de estanho e outra de madeira), uma cruz de prata lisa e um esplendor de prata. Eram as lembranças do convívio com os padres jesuítas e suas missões. Naquele momento, eles partiam, tendo a frente o cacique Poty, do povoado de Santo Ângelo, para uma espécie de "última missão", já sem os jesuítas, mas sob comando dos portugueses, no projeto de formar um aldeia e povoar o lado português da colônia.

Pois, na manhã deste 12 de abril de 2019 — 256 anos depois —, ergueu-se em ferro, com cerca de quatro metros de altura, na rótula entre a Avenida Centenário e a RS-118, em uma das entradas de Gravataí — justamente no ponto onde, acreditam os historiadores, os índios guaranis foram assentados em um primeiro momento —, um monumento à memória daquele legado trazido por eles para dar origem ao que viria a ser Gravataí.
"Desde que cheguei à cidade, uns 15 anos atrás, e conheci esta história, fiquei intrigado e queria muito fazer uma obra que valorizasse o povo guarani. Pensei em um busto de índio, mas, conversando com a prefeitura, descobri que já havia este projeto da cruz missioneira. Abracei a ideia e hoje me sinto realizado. O meu trabalho ficará para a posteridade da cidade", orgulha-se o artista Hermes Fonseca Vega Costa, o ferreiro Vega, criador da cruz que, nos planos do governo municipal, servirá, na Região Metropolitana, como uma das pontas do Caminho das Missões.


Não à toa, durante a cerimônia de inauguração, diversos prefeitos da região das Missões estiveram em Gravataí. Há expectativa de que a rota turística e histórica dos povoados ganhe um novo status a partir de agosto deste ano, com a inauguração, a partir do Paraguai, do caminho que uniria, em um único roteiro, os 30 povos missioneiros entre Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil.

"Não é só uma vontade de fazermos parte desta história única da formação dos nossos povos. Nós apresentamos um trabalho consistente, com dados históricos e documentação farta, comprovando que, após as Guerras Guaraníticas, aqueles índios missioneiros tiveram a Aldeia dos Anjos como destino, e prosperaram neste lugar. É nossa missão, não só valorizar a história, como promover ganhos turísticos e econômicos para a cidade a partir dela", diz o prefeito Marco Alba (MDB).

Durante a inauguração da cruz, e do possível roteiro alongado das missões, se conseguiu até mesmo unir ponta a ponta do caminho dos guaranis. Se Gravataí foi uma espécie de última missão antes da dispersão do povo guarani, São Nicolau foi a porta de entrada na então Capitania de São Pedro. Lá, foi criada a primeira missão jesuítica.

"Temos um enorme potencial turístico a ser explorado muito melhor. Hoje, os municípios da nossa região têm cerca de 30% da economia baseada no turismo das Missões, mas ainda nos falta organização. Termos esta integração com Gravataí, certamente vai despertar a curiosidade das pessoas em conhecer, a partir daqui, a origem das missões. Ou o caminho inverso", comenta o prefeito de São Nicolau, Ricardo Klein (PP), que lidera do Departamento de Turismo da Associação dos Municípios das Missões.

Bem aos moldes do que acontecia na Aldeia, que tinha nos padres católicos um alicerce fundamental, a inauguração da Cruz Missioneira foi marcada pela bênção do padre Lucas Mendes.

Da orla ao Itacolomi

Foto por: Reprodução
Descrição da foto: O mapa da Aldeia dos Anjos, entre o rio, o morro e os arroios Barnabé e Passo dos Ferreiros
Se a inclusão de Gravataí em um roteiro turístico que tem seu ponto alto a 500 quilômetros daqui não parece tão concreta, ao menos o dever de casa está sendo executado pela cidade. Há pelo menos dois projetos de revitalização e valorização turística em andamento na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo (SMDET), que alcançariam o território da antiga aldeia de ponta a ponta: a orla do Rio Gravataí e a trilha no Morro do Itacolomi.

"Acho que é o momento de irmos para a prática. Não adianta falarmos das paisagens e das histórias pela retórica. As pessoas precisam conviver com estes espaços para valorizá-los", diz o prefeito Marco Alba.

A cruz fica a pouca distância do Rio Gravataí, no local onde teriam sido instalados, ainda em condições precárias, os índios que chegaram à Aldeia dos Anjos. Depois de sete anos do aldeamento, finalmente o território demarcado entre o Rio Gravataí, o Arroio Barnabé, o Morro do Itacolomi e o Passo dos Ferreiros foi comprado para que a aldeia fosse instalada e a primeira rua, atual Anápio Gomes, tomou forma. Próximo do rio, e na atual praça central de Gravataí, ficava o centro nevrálgico da aldeia, e no pé do morro, as plantações.

Para a revitalização da orla, o município já tem recursos. Restam detalhes para a execução do projeto. Já a criação de uma trilha cultural e natural no Itacolomi está em fase de elaboração, e o projeto deve ser adaptado para captar recursos pelas leis de incentivo à cultura.

O projeto português

A Aldeia dos Anjos, iniciada em 1762, é um marco no estabelecimento português no atual Rio Grande do Sul. Foi na aldeia, e somente para os índios, que surgiu a primeira escola nesta terra. Durante 40 anos a aldeia existiu no território que ainda fazia parte de Viamão, a capital da Capitania de São Pedro, e, em pelo menos 20 anos, prosperou. A partir da produção dos índios, a Aldeia dos Anjos deu lucro, e despertou a cobiça. A decadência da aldeia, até a sua extinção, nos primeiros anos do século XIX, está diretamente relacionada aos arrendamentos das propriedades e venda do patrimônio que era antes mantido pelos guaranis.

É que este lugar foi uma espécie de laboratório para o projeto de povoamento da Coroa Portuguesa na colônia durante a segunda metade do século XVIII. Por isso, associar a Aldeia dos Anjos às missões jesuíticas é uma corruptela histórica. A Companhia de Jesus não participou deste aldeamento. Os jesuítas haviam rompido relações com Portugal, e a Aldeia dos Anjos se tornou a antítese das Missões.

Se lá, o convívio entre os jesuítas e os guaranis permitia a manutenção de traços culturais dos índios, aqui, foi aplicado o modelo da Coroa Portuguesa, do primeiro ministro Marquês de Pombal, que previa a aculturação dos índios. Não eram permitidas festas, cultos e sequer o uso da língua materna dos guaranis. A escola para meninos servia justamente para lecionar o português. As meninas índias eram enviadas para um recolhimento, onde eram "treinadas" para serem esposas, aos moldes portugueses.

O objetivo de Marquês do Pombal, o primeiro ministro e homem forte do império português à época, era aportuguesar os índios. Fracassou, e o que ficou de legado para Gravataí foi a resistência cultural dos índios. De acordo com os relatos da época, um percentual mínimo deles, de fato, falava e dominava o português ao final do aldeamento.


Correio de Gravataí
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