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Gilson Luis da Cunha

O menino maluquinho da Nickelodeon

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 02122018)
30/11/2018 10:37 03/12/2018 23:07

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

Essa coluna completou cinco anos em agosto. Cinco anos em que falamos de muita coisa: blockbusters, reboots malditos, HQs curiosas, livros, filmes tão Cult que quase ninguém acredita que foram feitos, e mais um zilhão de coisas. Mas, falha minha, nunca falei de Bob Esponja Calça Quadrada, ou, simplesmente, Bob Esponja. Infelizmente, o criador desse que é, talvez, o mais icônico desenho animado das últimas duas décadas, faleceu na segunda-feira, 26 de novembro, aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

Stephen McDannell Hillemburg (foto) nasceu em Lawton, Oklahoma, em 21 de agosto de 1961, e morreu em San Marino, Califórnia. Antes de se tornar animador ele era um biólogo marinho. Essa familiaridade com as criaturas marinhas, somada a uma queda pelo humor e pelo cartum, acabou levando-o a criar seu personagem mais famoso, inicialmente como uma HQ, em 1984, quando ainda trabalhava no instituto de biologia marinha de Orange County, na Califórnia. A HQ em questão, The Intertidal Zone, abordava o modo de vida de criaturas marinhas da zona entre marés e se destinava a seus estudantes. Os conceitos desenvolvidos por ele na HQ foram modificados, dando origem ao ingênuo e bondoso Bob, seu amigo, o "lerdo" Patrick Estrela e aos demais habitantes da Fenda do Biquíni (Bikini Bottom, no original).

Ele deixou a docência e entrou para o California Institute of Arts em 1989, a fim de tornar-se um animador. Durante sua graduação ele produziu os curtas de animação The Green Beret e Wormholes, que chamaram a atenção dos estúdios Nicklelodeon, que, em 1993, lhe ofereceram a produção de A Vida Moderna de Rocko, uma animação sobre um canguru e o modo como ele lidava com os problemas do cotidiano. Em 1994 ele começou a adaptação de The Intertidal Zone para animação, modificando os personagens. Bob, inicialmente arredondado e sem as famosas calças, acabou virando aquela esponja angulosa que todos conhecemos.

A série estreou em primeiro de maio de 1999 e, desde então, tem sido um estrondoso sucesso. À primeira vista, parece absurdo que um desenho sobre uma esponja que mora no mar, vive num abacaxi e trabalha como cozinheiro no restaurante de um caranguejo sovina pudesse se tornar popular com audiências das mais diferentes faixas etárias. Mas o fato é que essa era a intenção de Hillemburg e sua equipe desde o início. "Nós apenas tentávamos rir enquanto escrevíamos. Depois revisávamos o texto para ver se era adequado para crianças. Acho que a maior parte do humor vem da personalidade dos personagens. São apenas tipos engraçados fazendo coisas bobas", disse certa vez. Essa simplicidade, entretanto, alcançou níveis de sofisticação poucas vezes vistos nos desenhos animados.

Bob é um sujeito ingênuo, otimista, cheio de alegria e disposição, porém sem a menor noção. Patrick, seu amigo, é um completo vagal, nem um pouco inteligente, mas que se acha muito esperto. "Juntos eles são um perigo para si mesmos e para os outros, embora não saibam disso", disse Hillemburg, numa entrevista. Completam o núcleo principal Eugene Sirigueijo, marujo aposentado e o proprietário sovina do Siri Cascudo, a lanchonete mais famosa da Fenda do Biquíni, e Lula Molusco, o aborrecido, esnobe e entediado caixa do estabelecimento que, para seu azar, é vizinho da esponja mais louca dos sete mares.

Além do pessoal do Siri Cascudo, a série se notabilizou pela hilária galeria de personagens recorrentes, tais como Plâncton, o diabólico arquinimigo do Seu Sirigueijo, sempre tentando roubar a fórmula do hambúrguer de siri; Karen, sua esposa computador (hein?!); a senhora Puff, uma traumatizada professora de autoescola, que já foi parar na prisão por conta das loucuras de Bob; Sandy Bochechas, uma esquilo fêmea texana que, inexplicavelmente, escolheu o fundo do mar como residência; Pérola, a filha do seu Sirigueijo (que é uma baleia cachalote!); e, até, o amigo bolha e seu filho, personagens que, basicamente, são bolhas de sabão vivas e autoconscientes, além do Pirata Patchy e seu papagaio, em segmentos live action.

Ao longo de quase vinte anos, Bob, Patrick, Seu Sirigueijo, Lula Molusco, Sandy Bochechas e toda a comunidade da fenda do Biquíni experimentaram desde tramas banais sobre o cotidiano na cidadezinha no fundo do mar, até histórias envolvendo ficção científica (você jamais verá viagens no tempo como essas!), suspense psicológico (o que não fazer num sinal fechado?), aventura, e histórias de super-heróis, como as clássicas aventuras do Homem-Sereia (dublado pelo falecido Ernest Borgnine) e do Mexilhãozinho (Barnacle Boy, ou Menino Craca, em inglês), uma dupla de heróis aposentados que nada mais é do que uma impiedosa tiração de sarro com Aquaman e Aqualad. Aliás, foi nas vozes do elenco original que o desenho garantiu um de seus maiores trunfos: Tom Kenny, como Bob esponja (que também interpreta o pirata Patchy e o caracol Gary), Bill Fagerbakke como Patrick Estrela, Rodger Bumpass como o ranzinza Lula Molusco e Clancy "Kurgan" Brown como Seu Sirigueijo, entre outros. Sim. Você leu certo. O grandalhão que fez Kurgan, o rival de Connor Macleod em Higlander, e o malvado sargento Zim de Tropas Estelares, faz a voz do ganancioso dono do Siri Cascudo.

Parte do charme do desenho vem da inusitada salada de situações que beiram o surreal. Por exemplo, se Bob usa um fogão como é que eles fazem fogo debaixo d’água? E o que diabos faz um gorila aterrorizando os pacatos moradores da fenda do biquíni? Essas e outras questões metafísicas fizeram com que, no episódio piloto da série FRINGE, o insano Dr. Walter Bishop (literalmente um cientista louco), após passar 17 anos internado numa clínica psiquiátrica, ao ver o desenho pela primeira vez (junto com sua assistente... e uma vaca!), indagasse, entre risadas:

"...e isso é um show para crianças?"

"Devia ser", responde sua assistente.

"Tenta ser profundo, para uma narrativa sobre uma esponja", comenta ele, fascinado.

A série foi indicada a diversas premiações nesses dezenove anos, como o Annie Awards, com seis vitórias, Golden Reel, com oito vitórias, quinze indicações ao Emmy, com uma vitória, treze indicações ao Kids Choice Awards, vencendo em doze, além de quatro indicações e duas vitórias no BAFTA children.

Como se não bastassem todas essas características marcantes, o seriado conta com uma excelente trilha musical que combina canções folclóricas de marinheiros com música havaiana. Tanto a canção de abertura quanto o tema instrumental de encerramento, são músicas do tipo que grudam no ouvido e não saem de jeito nenhum.

Bob Esponja conseguiu a vice-liderança dos programas infantis do Nickelodeon em 2001, ficando atrás apenas dos Rugrats. No mesmo ano, Bob e sua turma ultrapassaram Os Rugrats e se tornaram o desenho de maior audiência na TV por assinatura estadunidense. Pesquisas de audiência revelaram que, naquela temporada, de seus 50 milhões de espectadores, 20 milhões eram adultos. Bob Esponja é a série mais longeva da Nickelodeon e, ao que tudo indica, continuará a ser produzida enquanto a audiência se mantiver boa. Isso, somado ao merchandising da série (bonecos, camisetas, bonés, canecas, etc), fizeram a revista Forbes chamar o desenho de "o pote de mel de um bilhão de dólares" da emissora. 

Bob Esponja ultrapassou a marca dos duzentos episódios, um feito invejável para uma série de animação. Pela ocasião do ducentésimo episódio, Brown Johnson, presidente da divisão de animação da Nicklelodeon afirmou que o sucesso, alcançado em mais de 200 episódios, "é testemunha da visão de Stephen Hillemburg, de sua sensibilidade para a comédia e de seus personagens dinâmicos".

A gigantesca popularidade catapultou o personagem para outras mídias. Em 2016 estreou na Broadway Sponge Bob Squarepants: The Broadway Musical. No cinema, a turma da Fenda do Biquíni já estrelou dois longas-metragens: Bob Esponja, O Filme, de 2004, no qual Bob e Patrick são ajudados por Mr. SOS Malibu em pessoa, David Hasselhof, e Bob Esponja, um Herói Fora D’água (2015), no qual Bob, Patrick, Sirigueijo, Lula Molusco, Plâncton e Sandy enfrentam o Pirata Barbaburger (Antônio Banderas, em sua melhor interpretação desde A Pele Que Habito). Um terceiro filme, Sponge Bob Movie: Its a Wonderful Sponge, está em produção, com lançamento anunciado para 2020.

Mesmo com todo o sucesso, Hillemburg nunca esqueceu sua missão de educar e conscientizar o público para a importância da preservação da vida marinha. Isso tanto é verdade que ele escondeu, bem debaixo dos narizes do público, uma deliciosa ironia, que só poderia ser descoberta por amantes do oceano: Bob Esponja e Patrick Estrela, na vida real, jamais poderiam ser melhores amigos, uma vez que estrelas do mar são predadoras de esponjas e outras criaturas sésseis. Mas o que é esse pequeno detalhe perto das loucuras que acontecem na Fenda do Biquíni? Dizem que a força de um sonho é sobreviver a seu sonhador. Se isso é verdade, Stephen Hillemburg, em sua breve passagem por este mundo, construiu um sonho que viverá enquanto existir alguém disposto a dar boas risadas. E se há algo de que esse planeta precisa é de risos. Muitos risos. Vá em, paz, Stephen, sentiremos saudade. Até mais e obrigado pelos peixes... e pelas esponjas, estrelas do mar, crustáceos, moluscos, baleias, e outras criaturas marinhas, além de uma esquilinha muito especial. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.


Correio de Gravataí
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