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Cris Manfro

É cedendo que ganhamos

"O que faz com que milhões de pessoas num curto espaço (o Vietnã é muito pequeno) não se desentendam se chama negociação"
18/11/2018 06:00

Cris Manfro NOVO Cris Manfro é psicóloga clínica, terapeuta de família e casal e mediadora familiar
acmanfro@terra.com.br

Recentemente estive no Vietnã e, mesmo que você já tenha ouvido falar da quantidade de motinhos, eu garanto: você não faz ideia do que é ao vivo. A cidade de Hanói tem 8 milhões de pessoas e 4 milhões de motinhos. Nas outras cidades o número em proporção aumenta ainda mais. Eles usam apenas esses capacetes de enfeite que na prática não protegem de nada. Andam em cinco numa moto, inclusive com crianças. Carregam de tudo, como centenas de dúzias de ovos, uma árvore adulta, 10 bambonas de água de uma vez e uma amiga viu uma vaca sendo carregada na motinho. Pode? Lá pode.

As buzinas não se acabam, num barulho infernal. No primeiro dia, eu não sabia como iria através a rua, principalmente com outra pessoa. Atravessar a rua uma primeira vez foi um desafio, uma aventura. Até que, parada num cruzamento de onde vinham carros, pedestres, muitas motos de seis cruzamentos diferentes e contando com as motos que vinham da calçada (sim elas circulam na calçada), me dei conta do que acontecia.

Ninguém colidia, ninguém se agredia, esbravejava ou fazia gestos ofensivos. Milhões de pessoas, naquela confusão e sem gestos ofensivos? A buzinação era como um código do tipo: "estou indo primeiro" ou "me permite passagem", bem diferente da forma como a buzina é usada aqui, que é "saia do meu caminho" ou "olha o que você fez". Mas como não vi nenhum acidente? Primeiro, pela quantidade de gente, todos são obrigados a andar mais devagar. Mas, por outro lado, pela quantidade de gente quase que impossível não bater. O que faz com que milhões de pessoas num curto espaço (o Vietnã é muito pequeno) não se desentendam se chama negociação. Foi assim que aprendi a atravessar a rua: negociando.

Percebi que era só ir atravessando cuidando para não me meter na frente dos outros que os outros cuidavam para não bater em mim e tudo dava certo. E depois de alguns dias e muitas ruas atravessadas, sentia tranquilidade no meio da confusão ordenada, onde pessoas negociam com cuidado e respeito, umas com as outras. Eu adoro aprender e entender as coisas. Então, quando comentei com um dos guias sobre isso, ele me respondeu que lá eles têm um ditado que diz: "Cedemos um para ganhar dez". Completou dizendo que brigar somente em último caso. Aqui ceder significa "perder" para o outro. Nunca pensamos que cedendo poderemos ganhar mais do que o dobro.

Ao invés de ceder, dar passagem, fazer o certo pelo bem comum negociando, aqui é salve-se quem puder, saia da minha frente, não ouse ameaçar tomar meu lugar, não queira ter vantagens sobre mim e assim, ameaçados, ansiosos, reagentes, seguimos a vida nos agredindo e vivendo mal. Atropelando uns aos outro. Atropelando a nós mesmos. Temos muito para aprender com quem já viveu três grandes guerras e entendeu que, cedendo, se ganha. Precisamos negociar e ceder dentro de nós mesmos.


Correio de Gravataí
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