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Gilson Luis da Cunha

Em sua missão de cinco anos...

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 30092018)
30/09/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha - Blog Diário de Bordo de um nerd no planeta terra

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.gilsonluisdacunha.com.br

No meio da correria deixei passar um aniversário importante. Em agosto, esta coluna completou cinco anos de sua primeira publicação, ainda na edição física dos jornais do Grupo Sinos. Se você é um leitor habitual, sabe que o título é uma referência à abertura de Jornada Nas Estrelas, a série clássica. A ironia dessa abertura é o fato da série com live action ter durado apenas três temporadas. No entanto, contando as duas temporadas da série animada, pode-se dizer que foi mesmo uma missão de cinco anos.

Do mesmo modo, essa coluna dominical durou três anos na edição física e já está há dois em seu formato online. Ao longo desse tempo, tentei dar a ela o perfil mais variado possível, dentro dos domínios da cultura geek. Resenhas de filmes e séries, comentários sobre HQs, livros, um pouco de tecnologia e, uma pitadinha de ciência e, algumas vezes, como diriam os Monthy Python, “algo completamente diferente”.

Pelas minhas contas, até hoje, só não falei da cultura do cosplay e, pasmem, zumbis. Pois é. Zumbis, esses monstros que são, junto com os vampiros, as criaturas mais onipresentes em filmes e séries de terror, nunca deram as caras por aqui. Sim, já falei de um filme do gênero, mas nunca sobre o monstro em si. Então, aqui vamos nós. O zumbi moderno (isso parece até nome de revista de variedades para mortos-vivos), na forma como o conhecemos na mídia é fruto de um caldo de influências que remontam ao folclore haitiano.

O zumbi, nessa tradição, não era um morto-vivo, mas sim, um humano normal, o qual, induzido pelo consumo de drogas desenvolvidas por xamãs ou feiticeiros, se tornava um dócil escravo, incapaz de resistir a seus captores. Frequentemente, a vítima de tais “feitiços” primeiro era induzida a um estado de quase morte, o que ajudou a contribuir com o mito do “morto-vivo”. Inúmeros casos de escravos que conseguiram recobrar o controle de suas mentes e fugir de seus senhores foram relatados no Haiti, desde os anos 70.

O cinema, notadamente o cinema americano caiu de amores pelo conceito e o explorou em diversos filmes. Nos anos cinquenta, filmes como Plano 9 do Espaço Sideral, do lendário Edward Wood Jr, o popular Ed Wood. No filme, um incompetente grupo de alienígenas tenta conquistar a Terra pela nona vez... O plano, o último disponível, envolvia reanimar os mortos e usá-los na conquista do planeta.

Mas o gênero dos filmes de Zumbi como o conhecemos foi estabelecido por George Romero (1940-2017) em seu clássico A Noite dos Mortos Vivos (1968). Nele pode-se ver todos os componentes do “cânone” do gênero: Mortos que são inexplicavelmente reanimados e, com andar lento e cambaleante, saem em hordas atrás da carne dos vivos. Essa seria apenas a primeira incursão de Romero no gênero, para o qual ele contribuiria ao longo de sua carreira. Os zumbis de Romero, com sua putrefação e mordidas contagiosas, ganhariam variações, como no filme Extermínio (2002). Contudo, os monstros nesse filme não eram mortos reanimados, mas sim humanos vivos, infectados com um vírus que induzia suas vítimas a caçar os sobreviventes ainda livres da doença.

No cinema, onde essa mitologia se consolidou, os mortos vivos tiveram as mais diversas origens: um agente de guerra química na comédia A volta dos Mortos Vivos (1985), que começa com um irônico aviso: “Baseado em Fatos Reais” (Sharknado? Sabe nada, inocente!). A passagem da Terra por um feixe de “misteriosas radiações” (sempre elas!) na comédia Fido, o Mascote (2006), ou mais comumente, explicação nenhuma.

Curiosamente, esse subgênero do terror, o dos filmes de zumbi, deu origem a um “sub-subgênero” cuja popularidade rivaliza com seu progenitor, o das comédias de zumbi, como o já citado Fido, e, talvez, o mais popular de todos, Todo Mundo Quase Morto (Shaun of The Dead, 2004), com a dupla Simon Pegg e Nick Frost. Além desses, merece destaque Juan dos Mortos (2011), um filme Hispano-Cubano que narra uma infestação zumbi na ilha dos Irmãos Castro do ponto de vista de dois malandros que resolvem criar um serviço de remoção de zumbis, para faturar uns pilas. O problema é que, como há falta de filmes americanos em Cuba, as metodologias dos coitados são bem precárias (eles tentam matar de vez os “desmortos” usando estacas, já que tudo o que conhecem são velhos filmes de vampiro.

Ainda nos domínios da comédia, mas numa linguagem literária, em 2003, o escritor Max Brooks (filho do mestre Mel Brooks) lançou o seu Guia de Sobrevivência aos Zumbis, um best seller no qual o autor discute, com a maior seriedade e cara de pau, tudo sobre os mortos que andam e como sobreviver a eles. Os capítulos abrangem desde “fisiologia zumbi”, até como escolher armas, abrigos e outros itens importantes.

Como biólogo e nerd, não pude deixar de entrar na brincadeira. Me chamou a atenção o cuidado com que Brooks tenta explicar o flagelo da civilização. Neste livro, a origem da praga é uma bactéria que, uma vez na corrente sanguínea se aloja no cérebro, tornando o órgão independente de respiração aeróbica, o que explicaria o porquê de ser necessário um golpe na cabeça para deter os monstros. É aí que a coisa vira fantasia pura. Se é possível que uma infecção bacteriana leve à morte, todo o resto não faz o menor sentido.

O zumbi desta “mitologia” é basicamente aquele dos filmes de Romero ou séries como The Walking Dead (quadrinhos e TV). Ocorre que, mesmo que tal mudança acontecesse, os outros tecidos, principalmente os músculos, que realizam os movimentos do corpo seriam incapazes de “obedecer” aos comandos desse cérebro, uma vez que, durante o processo de morte, as células sofrem uma série de ventos de degradação, causados tanto por agentes externos quanto internos.

Apenas para ilustrar, os impulsos nervosos viajam de neurônio em neurônio, até chegar na junção neuromuscular e ativar os músculos, nos fazendo andar, mover braços, mãos, girar a cabeça, etc. O transporte desses impulsos simplesmente não ocorreria, porque, para isso, entre outras coisas, é necessário que as membranas das células dos neurônios e dos músculos estejam intactas. De outro modo, seria como conduzir água através de canos recobertos com milhões de furos por toda a sua extensão.

Em TS-19, o sexto e último episódio da primeira temporada de The Walking Dead, é revelado por um médico do Centro de Controle de Doenças de Atlanta que, apesar de todos os esforços de sua equipe, nenhum patógeno foi identificado como causador da praga zumbi. Bem mais adiante na série, vem a cena que derruba de vez a explicação de Max Brooks (que, convenhamos, fez um livro de humor, mesmo que ninguém o reconheça como tal): presa num túnel de esgoto, uma sobrevivente dá de cara com esqueletos que, mesmo assim, sem cérebro ou tecidos moles, continuam se movendo e atacando.

Esse tipo de zumbi também é visto em filmes como o irregular Meu Namorado é Um Zumbi (2013), que praticamente destrói a essência do excelente Sangue Quente, livro no qual se baseia. No fim das contas, os zumbis são metáforas, seja para a decadência da sociedade de consumo, como os via George Romero, seja para o medo da perda da individualidade frente ao poder da mídia e do estado, ou, simplesmente, uma fonte de sustos e diversão. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. E que venham mais cinco anos! Até semana que vem.


Correio de Gravataí
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