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Luiz Coronel

Os debates em debate

"A mentira e a verdade estão brincando de amarelinha na calçada de nossa rua, no vídeo de nossa janela"
16/09/2018 06:30

Luiz Coronel é poeta
www.luizcoronel.com.br

1. Uma eleição majoritária, que mereça o nome, alcança aos eleitores um fértil ramalhete de opções, um balaio de alternativas, setas, caminhos, nítidas e concretas esperanças em exposição. Há uma nação em crise, um momento de descrédito, um povo caminhando de ombros caídos, temendo que esta eleição seja apenas uma mudança de retratos na parede.

2. Mas a esperança é flor teimosa. Brota entre as pedras. A linha divisória é muito clara. Há os que são contrários a qualquer mudança ou querem o passado de volta. Há os que advogam profundas mudanças estruturais do sistema. E uma grande multidão que não está entendendo nada. Viaja em mar revolto sem ter notícias do porto de chegada, levando a bordo seu imensurável desassossego. Mas todos sentem que a hora é decisiva. A história é qual um rio, arranca barrancos, mas não se detém.

3. O Executivo engoliu, ou melhor, comprou o Legislativo, com torpes moedas, “tipo mensalão”. O Judiciário recebeu, de mão beijada, os superpoderes que o vazio institucional lhe colocou nas mãos. A partir deste momento, Brasília se tornou a Corte de Luiz VI, com seu Palácio de Versalhes, seu ócio, perucas e frases espirituosas. Eis que comparece a “Lava Jato”, uma guilhotina contemporânea cortando nobres cabeças coroadas.

4. E vieram os debates entrando através dos bilhetes eletrônicos e das janelas televisivas. Entrevistadores, muitos deles, postam-se como inquisidores. Estamos ante homens e mulheres, que deveriam propor caminhos para uma pátria cujos rumos estão entregues aos cata-ventos, voando como jornais velhos pelas calçadas, anunciando temporal. “É preciso devolver verdade às palavras”, pedia um rei aos seus sábios, em priscas eras. A mentira e a verdade estão brincando de amarelinha na calçada de nossa rua, no vídeo de nossa janela. O povo pode não saber o que quer, mas sempre sabe o que não quer. Esta visão pinga otimismo em nossos olhos.

5. Vem ao meu socorro um texto de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) escrito no ano de 1917: “Ultimatum a vós que confundem o humano com o popular. Vós, anarquistas sinceros, socialistas a invocar sua qualidade de trabalhadores, para deixar de trabalhar. Passai aristocracia de tanga de ouro. Deixai-me respirar! Abram todas as janelas! Nenhuma corrente política que soe a uma ideia grão. O mundo quer uma inteligência nova. O que está aí a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. Eu, da raça dos navegadores, desprezo o que for menos que descobrir um mundo novo”.


Correio de Gravataí
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