Olá leitor, tudo bem?

Use os í­cones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, ví­deos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.
VOLTAR
FECHAR

Av. Dorival Cândido Luz de Oliveira, 6423 (parada 63) - Monte Belo - Gravataí - CEP: 94050-000
Fones: (51) 3489-4000

Central do Assinante: (51) 3600.3636
Central de Vendas: (51) 3591.2020
Whatsapp: (51) 99101.0318
PUBLICIDADE
Gilson Luis da Cunha

A verdadeira morte

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 09092018)
09/09/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.gilsonluisdacunha.com.br

Para boa parte da geração de meus avós, a vida era nascer, trabalhar, comer, rezar, ter uma família, se divertir, na medida do possível, e ter uma morte serena, em idade avançada. Como muitos, antes e depois deles a inquietação intelectual, o desejo de saber, de conhecer, de entender, é como um mistério, um tipo de doença mental que acomete a poucos. Felicidade, para eles, era ter uma casa confortável, boa comida e roupas quentes no inverno. "Conhecer o mundo? Saber o que veio antes e o que virá depois? Para quê?"

Suas existências pragmáticas, objetivas, voltadas para a solução de problemas imediatos, não admitiam especulações. "Tem coisas que nem é bom a gente saber", dizia meu avô. Típico produto do início do século passado, ele aprendeu a ler e a fazer cálculos para não ser "logrado". Isso lhe bastava. Afinal, a curiosidade matou o gato. O seguro morreu de velho e cercado por coisas familiares. O desejo de viajar, o desejo de aventura, nunca foi parte de sua natureza. De certo modo, meu avô foi um tipo de hobbit. "Tem que casar. Tem que ter filhos. Senão morre o nome!", dizia ele.

Para bilhões de outros seres humanos essa era a única forma de imortalidade. Transferir seus genes e seu nome para seus descendentes. Mas, convenhamos, isso não é imortalidade. Podemos dar todo amor do universo a nossos filhos e isso é o que importa. Mas não podemos exigir deles uma imortalidade ilusória. Nomes se perdem ao longo da história. Haja vista famílias inteiras de imigrantes rebatizadas por impacientes funcionários de alfândegas durante as ondas migratórias do final do século 19 e início do século 20.

E os genes podem mutar, ou, mais comumente, se diluir entre as populações. Todos nós, exceto os habitantes da África subsaariana, temos até 3% de genes neandertais. Onde estão os neandertais agora? Não. Existe uma outra forma de imortalidade, muito mais efetiva. Não a imortalidade de um indivíduo, nem a de uma família, clã ou tribo. Falo da cultura, a imortalidade de nossa espécie.

Os dias dos seres humanos sobre a Terra são curtos. Nove, talvez dez ou doze décadas. Mas a arte, a ciência, a cultura, o somatório das realizações humanas, permanece. Mais do que procriar, a verdadeira imortalidade de nossa espécie é a lembrança de suas realizações. Sei que não viverei eternamente. Mesmo assim, eu aceito minha mortalidade, grato por saber que toda a arte, ciência, literatura, e tecnologia, acumuladas durante milênios graças aos esforços de nossos ancestrais, não morrerão comigo. Como indivíduos somos finitos. Mas como uma cultura, somos imortais.

Incêndio no Museu Nacional

É por isso que a tragédia do incêndio do Museu Nacional do Rio, no último domingo, me abalou como se tivesse ceifado vidas humanas. E, de certo modo, ceifou mesmo. Ceifou fósseis de dezenas de milhões de anos. Ceifou o documento original da Lei Áurea, que aboliu a perversa instituição da escravatura. Varreu da existência obras de arte milenares, como os afrescos do tempo de Ísis. Pulverizou o trono do reino africano de Daomé. Queimou murais de Pompéia que sobreviveram à erupção do Vesúvio, mas não à indiferença de nossas autoridades. Fez desaparecer incontáveis espécimes preservados de plantas e animais extintos a séculos. Nos privou de uma das maiores coleções de arte egípcia antiga fora do Egito. Incinerou o maior dinossauro já montado no Brasil. Queimou a bíblia de Mogúncia, de 1462. Destruiu exemplares do primeiro jornal impresso no mundo, datado de 1601. E a lista continua.

O incêndio do Museu Nacional ceifou as vidas de gerações de historiadores, geólogos, botânicos, zoólogos, paleontólogos, pintores, escultores, escritores, bibliotecários, artesãos, etc. que, embora há muito falecidos, viviam naquele acervo. Os esforços de suas vidas foram reduzidos a cinzas devido ao descaso de tanta gente que nem vale a pena ficar apontando culpados a essa altura dos acontecimentos. É muito fácil dizer que a culpa dessa tragédia se resume só aos políticos e aos administradores. Infelizmente, a coisa não é tão simples.

Mentalidades simplórias não são um traço exclusivo de pessoas pouco instruídas. Muita gente com educação superior sorriu sem jeito ao saber que havia um acervo entomológico com milhões de espécimes de insetos, coletadas durante séculos por naturalistas, desde a época do império, nos mais remotos cantos do Brasil. "Insetos? E que serventia tem isso?", disseram alguns.

Engana-se quem pensa que isso é coisa de brasileiro. A estadunidense Sarah Palin, a folclórica governadora do Alasca e ex-candidata a vice-presidente de John McCain, num de seus discursos de campanha disse: "Pesquisa com moscas das frutas em Paris? Eu não estou brincando. É nisso que está indo o dinheiro dos pagadores de impostos". Drosófila, a mosca em questão, é o organismo que praticamente lançou as bases dos estudos da genética animal. Estudada ao longo do último século, o que se aprendeu com ela ajudou gerações de pesquisadores a entender os mecanismos moleculares de doenças humanas. Existem moscas com mutações, naturais ou induzidas, que apresentam distúrbios como diabetes, obesidade e doenças neurodegenerativas, sendo capazes de reagir aos medicamentos para tais enfermidades.

Os famosos pergaminhos do Mar Morto, encontrados em uma caverna em Israel, só não viraram couro para sandálias de um pastor beduíno porque ele os vendeu a colecionadores e, graças a isso, um pedaço esquecido da história foi trazido de volta à luz do dia. Há incontáveis exemplos dessa cegueira ao redor do mundo, em pessoas de todas as etnias, classes sociais e níveis de escolaridade. Não é uma questão simples. Não basta dizer que é só incompetência, indiferença (filha da ignorância) ou apenas estreiteza de mentes. A quase totalidade de nossa espécie não dá importância ao que não pode comer, vestir ou usar de algum modo.

"E daí se o Estado Islâmico está destruindo estátuas e inscrições babilônicas? Não moro na Síria. Isso não é problema meu", pensam muitos. Muita gente, não apenas no Brasil, compartilha esse pensamento tacanho. A curiosidade, a busca pela arte, pelo conhecimento, pela inovação, pela cultura é uma dádiva de poucos, infelizmente. Cabe a essa minoria, a que se importa, não esquecer o que aconteceu com o Museu Nacional. É um fardo doloroso, mas necessário. Pode ser a diferença entre manter nossa cultura, nossa identidade, nossa herança, ou sucumbir ao esquecimento. E este, sim, é a verdadeira morte. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.


Correio de Gravataí
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE