Olá leitor, tudo bem?

Use os í­cones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, ví­deos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.
VOLTAR
FECHAR

Av. Dorival Cândido Luz de Oliveira, 6423 (parada 63) - Monte Belo - Gravataí - CEP: 94050-000
Fones: (51) 3489-4000

Central do Assinante: (51) 3600.3636
Central de Vendas: (51) 3591.2020
Whatsapp: (51) 99101.0318
PUBLICIDADE
Gilson Luis da Cunha

O maior de todos!

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 03052018)
03/06/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.wattpad.com/search/Gilson%20Luis%20da%20cunha

Em meio à correria do cotidiano, e tentando me manter em contato com o que rola na cultura pop atual, acabo me esquecendo de que uma das propostas dessa coluna também é fazer "arqueologia nerd", desencavar coisas que a maioria de vocês quase não se lembra, principalmente aqueles com menos de 30 anos, ou, mais que isso, falar sobre ícones que, no passado foram lendários, mas que estão meio esquecidos pela mídia contemporânea.

Pois bem, hoje, por nenhum motivo em particular, gostaria de dedicar essa coluna a um dos cartoons que mais marcaram, senão o que mais marcou, minha infância: O Supergalo, uma produção de Jay Ward, famoso estúdio que nos deu Alceu e Dentinho, Mr. Peabody & Sherman e, George, o Rei da Floresta. E por falar em George, O Supergalo (Superchiken, no original. Ele era uma galinha e eu só descobri quando aprendi inglês!) é um desses casos em que o coadjuvante acaba roubando o estrelato e se torna, no mínimo, tão famoso quanto o astro principal.

Em 1967 (Droga! Deixei escapar um cinquentenário!) a Jay Ward Productions criou uma série de 17 episódios que contava as aventuras de um desajeitado rei da floresta que sempre errava o cipó e dava de cara nas árvores. O personagem foi muito bem recebido e viveu o bastante na memória do público para ganhar um live action, com Brendan Fraser, em 1997, uma sequência direta para vídeo e, em 2007, um remake para a TV.

De modo a aproveitar melhor o tempo na programação, foi decidido que essa amalucada paródia de Tarzan deveria conter, dentro de cada episódio, dois outros desenhos, digamos, para encher linguiça. Um era Tom Sem Freio (Tom Slick), um piloto de corrida que era a encarnação do bom-mocismo, sempre enfrentando os planos do diabólico barão Ottomático, o Dick Vigarista genérico de plantão.

O outro era O Supergalo, cuja identidade secreta era Henrique Dondoco III, um milionário (sempre um milionário! Será que milionários não têm nada melhor para fazer?) bon vivant, que, após tomar o super suco, uma bizarra mistura altamente condimentada, se transformava no poderoso galináceo, o defensor dos fracos e oprimidos e o herói com o grito de guerra mais irritante de todos os tempos.

Sempre ajudado pelo leão Fred, um pobre estudante tentando conseguir uns pilas como estagiário, sidekick e mordomo, o Supergalo cruzava os céus da cidade no Galocóptero, uma insólita nave em forma de ovo. Ao longo dos 17 episódios da série, O Supergalo enfrentaria a mais bizarra galeria de vilões já criada até então para um cartoon, sem mencionar um narrador insano que já quebrava a quarta parede antes que Ferris Bueller ou Deadpool usassem fraldas.

O tom irônico, malandro, sem-noção do desenho era simplesmente de explodir a mente da gurizada na faixa dos dez aos doze anos. O uso de diálogo (e, muitas vezes, bate-boca) entre personagens e narrador, marcava o clima da trama. Claro, sempre que a coisa ficava sinistra, sobrava para o pobre, que ouvia a resposta padrão de seu colega/mentor/empregador: "Você sabia que o emprego era perigoso quando aceitou".

Nunca vi um único episódio que ficasse devendo. Mas dois deles se tornaram antológicos: Aquele no qual o Supergalo enfrenta o Dr. Gozado, um ladrão cheio de truques, que começa o episódio driblando a polícia usando um boneco ridiculamente idêntico a ele. No final, ele acaba sendo vencido não pelos poderes (hein?) do Supergalo, mas pela malandragem do poderoso galináceo, que se vale (santa originalidade, Batman!) de um boneco do Supergalo ridiculamente idêntico a si mesmo.

Muitos vilões levariam Supergalo e Fred ao limite, como Robin Grude, que roubava dos ricos e dos pobres e ficava com tudo para si (eu sei que você já viu esse filme. Mas eram tempos mais inocentes) ou o Mestre, um feiticeiro que, durante anos, perguntou a seu espelho mágico "Quem é o maior de todos?", ouvindo sempre a mesma resposta, até o dia em que cometeu o erro de sair de casa de deixar a TV ligada tempo o bastante para que o espelho pudesse assistir cartoons... do Supergalo.

Tomado de um ciúme insano, ele arma uma cilada de baixo orçamento na tentativa de voltar a ser "O Maior de Todos!" aos olhos de seu item de mobília encantado. Entre os casos mais bizarros já investigados pelo herói penoso e seu azarado ajudante, esteve o desaparecimento de Rodhe Island, no episódio "Um de nossos Estados está faltando", no qual um avião destinado a pousar na capital, Providence, acaba tocando o oceano no lugar do Estado fujão.

Para quem não sabe, Providence é a cidade de H.P. Lovecraft, o cultuado autor dos Mitos de Cthulhu, que certamente jamais imaginou ver sua cidade e seu Estado sumirem por obra de alguma divindade extraterrestre e, muito menos, ser devolvido por um galo ruivo e raquítico vestido de zorro e seu assistente, um leão sem sorte usando um suéter vermelho com sua inicial bordada ao contrário. Na trama, a dupla comenta que levou algum tempo até que alguém desse pela falta. Acho que esse episódio não foi muito popular em Rodhe Island...

O humor anárquico e nonsense do desenho é, ainda hoje, contagiante. No final de cada episódio, o narrador, já devidamente disciplinado, soltava o bordão: "E quando você ouvir aquele berro nos céus...", seguido do cacarejante grito de guerra do herói. No Brasil, um dos grandes trunfos da série era a sensacional dublagem, que contava com os geniais Mário Monjardim (o primeiro dublador do Salsicha, de Scooby Doo) como o poderoso galináceo e Orlando Drummond (O eterno vozeirão do Scooby Doo), como seu ajudante.

Alguns episódios da saga estão disponíveis em streaming na Internet. Vale a pena conferir, seja você um fã de carteirinha ou alguém que acabou de descobrir o personagem. Vida longa e próspera e que o Supergalo, digo, a força, esteja com vocês. Até domingo que vem.


Correio de Gravataí
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE