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Crime ligado a " mentes doentias, insanas e cruéis"

Mestre em teologia, professor dá uma verdadeira aula sobre o diabo

Psicólogo e coordenador do curso de Teologia da Ulbra, Thomas Heimann foi convidado a esclarecer dúvidas sobre Satanás e as tais seitas satânicas
12/01/2018 09:49 12/01/2018 10:15

É do ser humano temer tudo o que não entende. O crime envolvendo os corpos do menino e da menina achados decapitados em Novo Hamburgo parece de fato coisa do diabo. Quer dizer, não dá para imaginar uma pessoa sendo responsável por isso. As dúvidas em torno do caso trazido à tona pela Polícia Civil são muitas, tendo em vista que poucas pessoas entendem este universo. Para esclarecer alguns pontos, não sobre o caso em si, mas a respeito de religiões que adoram Satanás e templos satânicos, convidamos o psicólogo e Coordenador do curso de Teologia da Ulbra, Thomas Heimann, para falar sobre o assunto. O professor não fugiu da polêmica. Auxiliado pelo também professor Clóvis Jair Pruzel, o mestre dá uma verdadeira aula sobre ocultismo. Na opinião dele, tudo que foi revelado até aqui mostra que o crime está ligado a " mentes doentias, insanas e cruéis" e não reflete a liberdade religiosa que existe hoje no País.

Quando começou esse esse culto a Satanás?

Thomas Heimann - Satanás é uma palavra hebraica que significa “adversário”. Pode ser traduzida também como “caluniador”, o que a equipara ao significado do termo grego diábolos. A “aparição” do diabo, também conhecido por Satanás, remonta, na cultura judaico-cristã, à narrativa da queda de Adão e Eva em pecado, relatado no capítulo 3 do livro de Gênesis, em que aparece como uma serpente que seduz e engana o casal. Aqui temos o provável início do dualismo religioso, que coloca frente a frente as forças do bem contra o mal, numa luta de Deus contra o diabo. No Novo Testamento, há relatos dessa luta, onde Jesus expulsa demônios e é tentado pelo próprio Satanás no deserto (Mateus 4.1-11). Esse dualismo também se evidencia na antiga religião persa, conhecida como Zoroastrismo, que remonta ao século VI antes de Cristo. Nessa religião, o mal, curiosamente, também é representado por uma serpente, chamada de Arimã. Porém, o culto ao diabo ou Satanás, como uma entidade ou uma força espiritual de quem poderia se esperar benesses, é um fenômeno muito mais recente, observado a partir do século XX. Já a invocação a demônios ou espíritos malignos de forma mais pontual, sem uma organização coletiva em torno da prática, é algo mais comum na história. Na realidade, as religiões dominantes sempre julgavam as expressões religiosas diferentes das suas como uma forma de adoração ao mal ou aos demônios, sendo esse um julgamento muito mais subjetivo.

Há números que digam quantos templos como o citado no caso policial existem? Ou mesmo qual o número de adoradores de Satanás no Brasil e no mundo?

Thomas Heimann - É preciso saber de que religião, afinal, estamos falando. Assim como há uma infinidade de denominações e correntes cristãs, judaicas, islâmicas, hindus, budistas, afro-brasileiras, há uma diversidade de denominações que se intitulam satanistas. A maior parte dos adoradores do diabo e Satanás reúnem-se em templos independentes, sem correlação organizacional um com o outro. Por esse motivo, há uma grande dificuldade em estimar o número de templos satanistas no Brasil ou no mundo. Não há dados no censo religioso do IBGE que citem o número de fieis satanistas, nem mesmo indicativos se está havendo um crescimento desse tipo de seita. O certo é que a pluralidade e a liberdade religiosa do nosso país são um cenário favorável para o surgimento das mesmas.

Se há diferentes tipos de satanismo, significa que os cultos não são os mesmos para todos os bruxos? Quer dizer, as crenças são diferentes ...

Thomas Heimann - Essa é uma pergunta muito pertinente. Normalmente colocamos todas as seitas num mesmo “balaio de gatos”. A quimbanda no Brasil, o Vodu no Haiti, a Santeria em Cuba são exemplos de religiões que são consideradas, por muitos, como religiões satânicas. Porém, no campo estrito da cultura religiosa, essa não é uma conclusão correta. Seitas satânicas poderiam ser definidas como um conjunto de indivíduos que adoram, veneram e cultuam entidades espirituais do lado obscuro e sombrio, acreditando que o diabo ou outros demônios possuem um poder interferente nesse mundo, sendo capazes de oferecer riqueza, prosperidade, saúde e bem-estar às pessoas. Normalmente envolve práticas ocultas, ritos macabros, além de diferentes feitiçarias, que soam estranhas a praticantes de religiões mais comuns. Porém, nem mesmo entre os satanistas há uma uniformidade. Diferentes correntes dessa seita já podem ser observadas. Anton LaVey é considerado o fundador do Satanismo moderno, ao fundar a Igreja de Satã na Califórnia, em 1960 e ao escrever a Bíblia Satânica em 1969. Mas esse é um satanismo muito mais voltado ao engrandecimento do próprio ser humano, sendo Satã um arquétipo e não um ser pessoal. O Satanismo LaVeyano não incentiva práticas que possam causar mal a outros sujeitos, por exemplo. Um outro grupo satanista reconhecido é o Templo de Set, também criado na Califórnia, em 1975. Geralmente esses grupos satanistas organizados não cometem ilícitos penais ou crimes contra a pessoa. Porém, seitas satânicas independentes, conduzidas por indivíduos amorais, psiquicamente perturbados, têm muita mais probabilidade de realizar suas práticas utilizando métodos criminosos, seja profanando corpos humanos e, em casos mais extremados, chegando a sacrificar, digo assassinar, pessoas.

Isso quer dizer que os rituais satânicos não costumam incluir sacrífico humano, ou mesmo de animais, não é mesmo?

Thomas Heimann - Os sacrifícios de animais ou mesmo humanos não são novidade no mundo religioso, desde a antiguidade. Eram realizados, geralmente, para aplacar a ira dos deuses diante de desastres naturais. Fossem secas, terremotos, vulcões, etc. Ou para alcançar e agradecer favores especiais, como a vitória numa batalha. Alguns exemplos, historicamente registrados, são encontrados entre os astecas, que realizavam sacrifícios humanos diários ao deus Sol. Na Bíblia é também citado o culto ao deus Moloque, uma divindade pagã adorada pelos amonitas. Nesse culto era comum se sacrificar crianças no fogo para agradar a divindade. Há uma proibição e condenação clara do Deus judaico cristão a essa prática pagã e sacrificial, conforme lê-se em Levítico 20.2-5. Essa prática, mesmo que cada vez mais rara, ainda pode ser encontrada em algumas seitas, dentre as quais as satânicas, mas muito mais ligadas a um líder religioso amoral e perturbado do que a um preceito geral que possa orientar tal prática como usual.

E quem cultua o diabo também cultua lúcifer e belzebu? São sinônimos como diz o dicionário ou há distinção entre eles?

Thomas Heimann - Importante definirmos os termos. Lúcifer é um nome cujo significado é “estrela da manhã” ou “aquele que traz a luz”, sendo uma tradução bíblica para o latim do termo hebraico heylel, presente no texto de Isaías 14.12, que tudo indica refere-se queda do anjo, que passa a ser conhecido como Satanás, ou diabo. “Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!” Com relação ao nome Belzebu, na Bíblia Sagrada ele é utilizado como sinônimo do próprio diabo ou Satanás, não havendo distinção na sua essência. O nome Belzebu teria sua origem a uma divindade pagã dos filisteus, Baal Zebub.

Mesmo sem "entrar" nos detalhes do tal ritual satânico que tirou a vida das duas crianças, o que pode ser dito do que foi divulgado pela polícia? É normal haver crânios com sangue em bacias?

Thomas Heimann - O sangue possui um simbolismo muito forte em diferentes religiões, como elemento de purificação e chamamento de entidades espirituais, mas obviamente que o uso de crânios humanos e sangue numa bacia não é um elemento religioso comum ou “normal” em ritos religiosos tradicionais, sendo causador de um impacto muito negativo para quase 100% da população. Mas aqui estamos adentrando num campo de enorme subjetividade religiosa, com significados específicos para cada grupo ou seita, geradores de grande polêmica, que tangencia perigosamente não só para imoralidade, falta de ética como também da ilegalidade.

O principal nome ligado ao caso é um bruxo, mestre das artes ocultas. Pergunta: todo bruxo adora satã? Ou cada um tem sua crença?

Thomas Heimann - Como já foi dito, há muitos tipos de ocultismo, feitiçaria e bruxarias. Nem todos, ou melhor, a maioria deles não são adoradores de Satã ou de qualquer entidade espiritual maléfica. Apenas para citar como exemplo, existe a Religião Wicca, que tem origens históricas no xamanismo celta (europeu) e que pode ser considerada uma bruxaria que conjura forças da Natureza para a busca da felicidade e equilíbrio do ser humano, sempre considerando o respeito ao outro. Portanto, cada bruxo, especialmente no caso das seitas satânicas, vai construir o seu conjunto pessoal de crenças, aplicando-o ao seu templo e aos seus fiéis. Isso é bastante diferente no caso das religiões tradicionais ou mesmo no caso da religião Wicca, que busca normatizar o conjunto de crenças a todos os seus religiosos ou sacerdotes, evitando que cada um faça o que bem entender.

É normal as pessoas terem medo de pentagramas? Porque no muro do templo satânico em Gravataí tem um pintado. Todos estão ligados a satanismo?

Thomas Heimann - Os símbolos, na maior parte das vezes, são polissêmicos, ou seja, possuem uma diversidade de sentidos e significados, tanto mais quando adentramos no terreno da religiosidade. Inicialmente, para alguns cristãos, o pentagrama tinha o elemento místico de representar a lembrança das cinco chagas de Cristo na cruz. Já para a religião Wicca o pentagrama representa os elementos fundamentais: terra, ar, água, fogo e espírito. Leonardo Da Vinci utilizou o pentagrama para nele ilustrar o “Homem Vitruviano”, numa relação geométrica do homem com o Universo. Porém, no século XIX, como forma de afrontar o símbolo originalmente cristão, seitas pagãs e satanistas passaram a adotar o pentagrama invertido em alusão à divindade pagã Baphomet, passando a ser conhecido, desde então como um símbolo do diabo. Concluindo, o símbolo do pentagrama, em si mesmo, não nos deve causar qualquer temor ou medo, pois a sua função é nos remeter a um significado. É esse significado que deve ser refletido por cada um. O temor ou respeito que tivermos está no sentido que dermos ao símbolo, no seu contexto de utilização, seja ele positivo ou negativo.

Qual a sua opinião pessoal sobre o caso exposto?

Thomas Heimann - A liberdade religiosa que gozamos em nosso país não pode ser utilizada por indivíduos ou grupos que rompem os limites morais, éticos e legais, na busca de obter interesses pessoais, motivados por cobiça, ambição ou sede de poder e dinheiro. O crime noticiado pela mídia, caso seja confirmado como um ato mediado por uma seita satânica, pode estar ligado a indivíduos amorais, a mentes doentias, insanas e crueis, que parecem ter esquecido que a religião tem um papel fundamental dentro da sociedade, de promover o cuidado e o bem do próximo, nunca o seu mal. Precisamos resgatar a mensagem de Jesus Cristo, que ensinou e viveu, em toda sua plenitude, o amor e a compaixão ao outro, como ele mesmo disse: “Não existe maior amor do que este: de alguém dar a própria vida por causa dos seus amigos”. (João 15.13)

Saiba mais

Thomas Heimann possui graduação em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil, graduação em Teologia pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia e mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia. Atualmente é professor titular da Universidade Luterana do Brasil na área da Graduação e Pós-Graduação e é o atual coordenador do curso de Teologia da Ulbra, nas modalidades presencial e EAD. Tem experiência na área do aconselhamento pastoral e na Psicologia, com ênfase em Psicologia Clínica, atuando principalmente nos seguintes temas: aconselhamento pastoral, psicologia pastoral, morte e luto, cuidado a cuidadores e espiritualidade e saúde. É bolsista da CAPES no Programa de Doutorado da Escola Superior de Teologia. Atua como professor convidado do curso de especialização em Aconselhamento e Psicologia Pastoral da Escola Superior de Teologia.


Correio de Gravataí
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